O Rei Sapo ou Henrique de Ferro

23 abril 2013, Comentários 0

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Era uma vez, em tempos muito remotos, quando ainda os desejos podiam ser realizados, um Rei cujas filhas eram lindíssimas. Mas a caçula era tão bela, que até o Sol, que já vira tantas coisas neste mundo, maravilhava-se a cada vez que lhe iluminava o rosto.

Nas proximidades do castelo real estendia-se uma floresta grande e sombria, onde embaixo de uma velha tília havia um poço. Nos dias de muito calor, a princezinha ia para o bosque e sentava-se à beira desse poço. Quando principiava a aborrecer-se, entretinha-se com uma bola de ouro jogando-a pra o alto e pegando-a novamente nas mãos. Era este o seu brinquedo favorito.

Certa vez, a bola de ouro escapou-lhe das mãos caindo no chão rolou para dentro da água. Seguindo-a com o olhar, a menina viu quando desapareceu nas profundezas do poço, pois ele era tão profundo que não se via o fim! Começou então a chorar, sem poder conformar-se, soluçava. De repente, ouviu uma voz que dizia:

– Que aconteceu princesa? O teu choro é capaz de comover até as pedras.

Ela voltou-se para ver de onde vinha aquela voz e avistou um sapo, que metera sua cabeça gorda e feia para fora da água.

– Ah és tu, velho saltador! – exclamou ela – estou chorando por que a minha bola de ouro caiu dentro do poço.

– Acalma-te e não chores mais – retrucou o sapo – posso ajudar-te. Mas que me dás em troca se eu trouxer o teu brinquedo?

– Tudo que desejares, meu bom sapo – disse ela – meus vestidos, minhas pérolas e pedras preciosas e até mesmo a coroa de ouro que estou usando.

O sapo redargüiu:

– Não quero teus vestidos, tuas pérolas e pedras preciosas, nem a tua coroa de ouro. Mas, se prometeres gostar de mim, e se permitires que eu seja teu amiguinho e companheiro, que eu me sente ao teu lado na mesa, coma do teu pratinho de ouro, beba do teu copinho e durma em tua caminha, eu descerei ao fundo do poço e trarei tua bola de ouro.

– Oh, sim! – exclamou a princezinha – prometo tudo o que quiseres, desde que tragas a minha bola.

Mas, pensava consigo mesma: – Que sapo pretencioso falando dessa maneira! A única coisa que ele faz é ficar no meio da água com os outros sapos a coaxar! Não pode ser companheiro de um ser humano.

O sapo, depois de ouvir a promessa, mergulhou na água e foi ao fundo. Passados alguns momentos, apareceu à tona trazendo na boca a bola de ouro e atirou-a sobre a relva. A princesa, ao rever seu lindo brinquedo, ficou radiante de alegria, apanhou-o e saiu correndo.

– Espera, espera! – gritou o sapo. Leva-me contigo, não posso correr assim tão depressa!

Mas de nada adiantou coaxar e coaxar pois a princesa não o atendeu, apressando-se a chegar em casa e, pouco depois, esqueceu-se do pobre sapo que viu-se obrigado a voltar ao poço.

No dia seguinte, quando a princesa estava sentada à mesa com o Rei e toda a corte, comendo em seu pratinho de ouro, eis que – plisch, plasch, plisch, plasch, algo estava subindo a escadaria de mármore e quando chegou diante da porta, bateu e disse:

– Princezinha caçula, abre a porta para mim!

Ela, saiu correndo para ver quem a chamava, mas quando abriu a porta, deparou com o sapo lá fora. Bateu a porta com toda a força e, amedrontada, voltou a sentar-se à mesa. O Rei notando como lhe batia o coração, perguntou-lhe:

– Por que estás com medo, minha filha? Há por acaso algum gigante lá fora querendo levar-te?

– Oh não! – respondeu a menina. Não é gigante, mas um sapo nojento.

– E o que deseja de ti, o sapo?

– Ah, querido pai! Ontem quando eu estava na floresta, brincando junto ao poço, a minha bola de ouro caiu na água e como chorei muito, o sapo foi buscá-la para mim. Depois, devido a sua insistência, prometi-lhe que seria meu companheiro, mas nunca imaginei que pudesse viver fora de sua água. Agora, está aí fora e quer entrar!

Nesse momento, bateram novamente à porta e ouviu-se uma voz que dizia:

Oh, princezinha caçula
Abre a porta para mim!
Já te esqueceste de tudo
E das promessas enfim!
Oh, princezinha caçula,
Abre a porta para mim!

– Deves cumprir o que prometeste, vai e deixa que ele entre – disse o Rei.

A menina obedeceu e foi abrir a porta. O sapo saltou para dentro, seguindo-lhe os passos até a sua cadeira. Ali plantou-se e disse:

– Agora levanta-me do chão, para eu ficar ao teu lado.

Ela hesitou, mas o Rei ordenou que ela assim fizesse. Uma vez em cima da cadeira, o sapo quis ir para cima da mesa, e, quando lá se viu, insistiu:

– E agora, aproxima de mim o teu prato de ouro para comermos juntos.

A princesa obedeceu, mas bem se via como estava contrariada. O sapo comeu com muito apetite; ela, porém, mal pôde engolir um bocado.

Finalmente disse o sapo.

– Estou bem alimentado, mas com sono. Leva-me agora à tua caminha de seda; vamos deitar e dormir juntos.

Ante esta nova exigência, a princesa irrompeu em pranto. Sentia pavor daquele sapo frio no qual nem se atrevia a tocar e que agora pretendia dormir no seu leito de seda, tão limpinho!
O Rei zangado repreendeu-a:

– Não deves desprezar a quem te prestou ajuda quando estavas necessitada.

Ela então pegou o sapo com dois dedos e levou-o para cima, onde o largou num canto. Mas logo depois que se deitara, veio ele se aproximando aos saltos, dizendo-lhe:

– Estou cansado e quero dormir tão bem como tu; levanta-me senão contarei a teu pai.

Perdendo a paciência, enfurecida, a princesa levantou o sapo do chão e, com toda força, jogou-o contra a parede.

– Agora vais sossegar, sapo imundo!

Mas ao estatelar-se no chão, deixou de ser um sapo nojento e transformou-se em um príncipe de olhos belos e amáveis, que tornou-se então, pelo desejo do Rei, marido da princesa.

O príncipe contou que um bruxa má o havia encantado e ninguém, a não ser a princesa, podia libertá-lo e tirá-lo do poço. Disse ainda que no dia seguinte iriam juntos para o seu reino. Adormeceram e quando pela manhã o sol os acordou, chegou uma carruagem com oito cavalos brancos como a neve, adornados com plumas brancas de avestruz e correias de ouro. Na parte de trás do carro, em pé, vinha o criado do jovem Rei, o fiel Henrique. Este, ficara tão triste ao ver seu amo transformado em sapo, que mandara passar três aros de ferro em torno de seu coração para evitar que ele se partisse de dor e tristeza.

A carruagem devia conduzir o jovem Rei de volta a seu reino. O fiel Henrique auxiliou os noivos a subir nela. Depois, foi colocar-se no seu posto, cheio de alegria pela libertação de seu senhor. Quando já haviam percorrido um trecho do caminho, o príncipe ouviu um barulho, como se alguma coisa estivesse quebrando. Voltou-se e indagou:

– Henrique, o carro está quebrando?

– Não é o carro que se quebra.
É um aro do meu coração
Que não podia de dor
Quando naquele poço profundo
Vivias convertido em sapo.

Por mais duas vezes se ouviu o estalo durante a viagem e sempre o príncipe pensava que a carruagem se partia. Mas eram apenas os aros que iam saltando do coração do fiel Henrique, por ver seu amo salvo e feliz.

E ninguém sabe… Se não morreram, vivem felizes até hoje.

Olá aos participantes da Vivência da Aquarela com Conto de Fadas no Liceu Rudolf Steiner
Faremos uma aquarela com as cores primárias, gostaria que previamente conhecessem o conto O Rei Sapo (que está no anexo), façam a leitura nas noites e levem para o sono estas imagens e tragam este trabalho para o encontro. Observem especialmente as imagens que estão em negrito.
Boas descobertas,
Lucila Maris Broetto
lucilamarisb@gmail.com
41 3085 3416
Skype: lucilabroetto