A Vontade e o Parafuso

11 março 2014, Comentários 0

Parafuso de ArquimedesImagine se a gente pudesse acordar de manhã e todas as nossas ideias – brilhantes ideias, aliás – concebidas no dia anterior se tivessem materializado: carro novo, beleza estonteante, jardim florido, paz na terra… A vida estava ajeitada! Imagine que cada um de nós tivesse a graça de ver efetivadas todos os seus planos. Os mais modestos, do dia para a noite.

No entanto há anos estamos insatisfeitos com a casa em que moramos, com o carro que temos, com o chato do nosso chefe. Há anos detestamos o cheiro do amaciante que usamos na roupa, não gostamos da mancha que o desinfetante deixa no ralo do banheiro, mas nada muda no dia seguinte. E por que será?

Temos incômodos de toda a sorte, ou ideias originais, positivas, reveladoras, revolucionárias. Mas elas não se efetivam na manhã seguinte! Olhamos a vida dos outros e já as temos resolvidas. Sabemos o que dizer aos vizinhos dos outros, sabemos como educar os filhos dos outros, sabemos como resolver o problema diplomático entre as duas Coreias. Sabemos tudo. No entanto, mesmo quando temos uma ideia bem clara do que deve ser feito, nada ocorre. Ideias, somente.

Estive pensando sobre esta nossa incapacidade de fazer matéria de tudo o que nos passa na mente. Primeiro achei um incômodo, depois pensei melhor e vi que todo mundo pensa muito. Todo mundo tem ideias, mas não é a capacidade de ter ideias que traz o mérito de as ver passeando diante dos nossos olhos.

Pense em um inventor. No Arquimedes, por exemplo. Podemos listar as invenções que este sujeito conseguiu deixar para a posteridade. São muitas e isto é de se admirar. É raro a gente se lembrar de que ele dedicou toda a sua vida a esta tarefa, talvez fosse melhor pensar que ele empenhou sua existência nestas conquistas.

A questão é que as invenções manifestam este processo absolutamente mágico que é a materialização de algo que nos aparece no pensamento. O famoso ‘parafuso de Arquimedes’ – aquele que traz a água de baixo para cima – é uma ideia simples e genial. Mas para fazê-la viver entre nós houve a necessidade de um empenho maior que a simples concepção do gênio.

Sim, há que se apaixonar por ela e há que se submetê-la ao ofício da Vontade!

As pernas e braços do homem precisam se empenhar na confecção material de uma ideia. Você pode contestar: ‘quem pode provar que Arquimedes colocou a mão na massa?’ Bom, eu não disse que tinha que ser a mão do Arquimedes. A vontade deste homem pode ter-se expressado em palavras a um outro homem que tivesse empregados, talvez escravos, por exemplo e daí estes é que construíram o parafuso. Mas se o homem que concebe a ideia não tem firmeza suficiente para persegui-la, a ideia vai embora. Evapora, encrua, envelhece. A ideia só vai nascer do empenho de uma vontade disciplinada e persistente.

A minha mais ardente vontade, aquilo que o meu espírito anela noite e dia é o Liceu Rudolf Steiner em sua completude: sede, financiadores, professores, funcionários, cursos, empreendimentos, muitos alunos, muito serviço! Um centro de formação humana em que as pessoas livremente descubram o seu caminho. Uma grande quantidade de pessoas se servindo, se alimentando e crescendo dentro de um ninho social desafiador e ao mesmo tempo extremamente necessário e reconfortante.

Para isso não me basta um dia imaginá-lo. Não me basta um dia descrevê-lo. Não basta dar uma palestra. Não basta conquistar um grupo. Para isso é necessário a força da vontade atritando contra a aspereza do mundo. É esse exercício que faz as ideias tornarem-se entes do nosso convívio e é este exercício que temos que ter como prática diária.

E eu não desejo o caminho liso e fácil para ninguém. Sinceramente, olhando para a história de Arquimedes, eu desejo vida suficientemente longa e espírito desperto para todas as pessoas. Porque eu desejo ver muitas ideias vivendo entre nós. Porque no fim, as ideias são só um argumento, um pretexto que a vida nos propõe para nos tornarmos seres humanos melhores.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.