A volta por cima

27 janeiro 2014, Comentários 0

giovannibattistatorriglia_a_happy_familyDe algum modo não somos perseverantes o suficiente para ir até o final dos ciclos. Todos tem um momento de glória, todos de desgraça, mas de alguma maneira não conseguimos permanecer no ciclo todo com as pessoas. Sentimos terrivelmente a desgraça quando se abate sobre alguém, lamentamos, vamos até a casa delas, comentamos com pesar, mas um pouco depois, viramos as costas! Depois de um tempo rareiam as pessoas que estão comovidas ainda que ligeiramente com o acontecimento.

Existe uma coisa mais interessante ainda por notar: nós mantemos o mesmo discurso e revisitamos o mesmo sentimento de pesar que tivemos ao dar os pêsames, ao saber de um grave acidente, de uma pessoa ter sofrido uma violência. Assistimos horrores e ficamos indignados, achamos que não existe justiça, nos penalizamos, nos revoltamos e não conseguimos acompanhar o caminho que a pessoa fez ou faz para sair daquele buraco.

Desconfio que fosse preciso permanecer com ela até que ela superasse, ou perdoasse, ou esquecesse e fosse simplesmente feliz poque amadureceu naquela experiência. Este é o seu caso? A gente sabe de tanta coisa ruim! E fica se lamentando sem ter a menor noção de que as pessoas estão passando pelo processo, que o acontecimento ruim é uma pergunta: ‘o que você vai fazer disso?’ Vai mesmo ser o velho esquema da vingança ou daquela certeza satisfeita de que ‘aqui se faz e aqui se paga’?

Você já foi assaltado, violentado, já morreu alguém na sua família? Já houve uma inundação, um incêndio, uma doença grave que todo mundo se abalou? Claro que sim! Na família de todo mundo isso acontece, mas a gente não fica assistindo o resto do ciclo. A gente não descobre que depois de ter nascido um menino com uma síndrome esquisitíssima que virou história na vila a família do menino se torna um modelo de contentamento e positividade e comemora uma conquista atrás da outra: ele aprendeu a andar, a falar, a ler e a escrever e passou no vestibular, está namorando e… é feliz! Contra todas as expectativas!

Ninguém fica para ver como as pessoas se reconstroem! E todas as pessoas se reconstroem. E a gente vive com medo e só registra no diário os processos descendentes da desgraça. Mas tudo tem o seu ciclo. Tudo tem o retorno e tudo está esperando que a gente dê a volta por cima.

A verdade é que a gente precisa perseverar até o ponto de ascendência. Precisa esperar para ver como as pessoas digerem as coisas. Como a solidariedade e a madureza sobrepujam as desgraças. Como delas nascem mulheres fortíssimas capazes de dar a mão para gente inexperiente como nós sem guardar dor nenhuma. Precisa esperar para ver que os meninos que passaram por terrores se tornaram homens amorosos e são capazes de perdão e de muito mais. Precisamos ver as famílias lindas e nobres que nasceram do sofrimento – e que abandonaram o sofrimento.

É preciso, eu diria até que é urgente, a gente perseverar até o final dos ciclos para que a gente constate tipo São Tomé que as pessoas tem muito mais força do que aparentam ter, que elas podem muito mais do que acreditamos que poderiam.

Mais que tudo, precisamos nos desacostumar a acreditar sempre que a desgraça é o que existe de mais certo e permanente na vida. Não é assim. Vive-se 80 anos e se é assaltado uma vez! Vive-se 80 anos e se sofre um acidente em uma única esquina. E sim, se passa três meses com gesso no pé e com raiva do motorista que te atropelou, mas ninguém te condena a guardar a raiva para sempre. Isto é um hábito!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.