Vive para sempre!

14 maio 2014, Comentários 0

dente de leãoHoje morreu um menino na escola da minha filha. Que dor imensa a morte deste menino. Ninguém precisa me dizer: ‘e se fosse sua filha?’ Eu sinto como se fosse minha filha. Ela tem pouco menos que a idade deste menino que morreu na sua escola. E eu sei que não haveria lágrimas suficientes nos meus olhos para chorar pela perda da minha filha.

Mas o menino é filho nosso, também. É um ser humano que escolheu nascer na nossa família, que vive ano após anos sob nossos olhos, sob nossos cuidados. É quem vai descortinar o significado do amor avassaladoramente, sem que nos dêmos conta. E vamos conduzi-lo mundo afora, mostrar para ele o que está por vir e o que estivemos fazendo até agora.

Certamente o colocaremos na escola e ele vai crescer em conhecimento daqueles assuntos que estão no currículo e vai conhecer as pessoas, fazer laços com elas, encontrar novos amores.

Não existe tamanho na tristeza de perder este menino. Tudo o que nós queremos para ele de alegria e triunfo na vida, todo o impulso de realização que dedicamos a ele simplesmente deve acabar. Finda-se sobre aquele ser que era centro do nosso carinho maior e resta este vácuo.

Ainda que minha garganta se aperte com um choro que não consigo conter, é preciso agradecer cada minuto da vida deste menino. De fato ele veio para enfeitar por 17 anos a vida de uma família. Por 17 anos ele cumpriu a tarefa de endireitar caminhos tortos, suavizar palavras ásperas, enternecer corações endurecidos. Ele trouxe alegria e esperança e estabeleceu relações de afeto e doçura. Não há nada que se deva lamentar.

Mas lamentamos. Lamentamos o que não veio, o que não se realizou.

Muitas vezes me consola aquela história da mulher que imagina como contar ao marido a morte de seus filhos:

Ele volta de uma viagem longa, abraça sua esposa e pergunta das crianças. Ela lhe responde: ‘eu preciso que você me ajude a resolver um assunto muito grave antes. Quando viajaste, um amigo nosso me confiou um par de brincos, joias de um valor incalculável que ele acreditava que eu poderia cuidar para ele. Agora ele as quer de volta, mas eu não queria devolvê-as.

O marido sorri e lhe diz que não entende o motivo de ela se apegar tanto a um par de brincos.

‘Se você os visse, você também não quereria devolvê-los.’ Diz a mulher.

‘Por mais que sejam preciosos, por mais que pudessem enfeitar seu rosto e deixá-la ainda mais bela do que já é, por maior valor que tenham, não podemos ficar com algo que não nos pertence. Eu mesmo vou devolvê-los.’

Ela desmancha-se em lágrimas e diz que isso mesmo já havia acontecido. Que os meninos seus filhos tinham sido tomados pela morte e levados de volta para o reino de Deus.

Só então seu marido compreende tudo.

Talvez a gente precisasse estar sempre disposto a considerar que nossos filhos não nos pertencem, mesmo. Que são presentes que nos ficam durante uma parte de nossa vida, que nos cabe guiar, instruir, acolher, cuidar, mas não há momento certo para que vão embora – pela vida afora onde nós poderemos acompanhar seus passos de longe, ou de volta para o mundo espiritual a que todos pertencemos.

Desejo a esta família que perde este menino hoje todo o conforto que seja possível, toda a mansidão diante desta perda. Meu carinho, minha compaixão, meu zelo intenso e meu cuidado.

Que lição difícil de aprender esta de se abdicar do foco de um amor tão grande na terra! Que este menino fique bem, também. Que faça a passagem com serenidade e que receba no mundo espiritual todo o acolhimento e amor que possa existir. Foi embora o que é efêmero, o que é perene vive para sempre.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.