Viva direito!

29 novembro 2013, Comentários 2

o centro

A gente não vai ter tempo de ser rico, nem de ser homem ou de ser dançarina. A gente não vai conseguir pular de um avião e sobrevoar vales verdes planando nas abas da própria roupa antes de pousar suavemente na colina. A gente não vai conseguir fazer o mais belo discurso sobre a paz. A gente não vai conseguir morrer todas as mortes nem nascer em todos os tipos de parto. Não vai ser parte integrante de todas as tribos, não vai ter todos os sotaques, não vai ser de todas as cores nem vamos experimentar todas as cabeleiras.

Não, a gente não vai conseguir pisar os mesmos passos – sequer os dos nossos pais ou dos nossos irmãos, não vai conseguir usar todas as roupas, cumprir todos os compromissos, não vai conseguir visitar todos os lugares, falar com todas as pessoas, dizer todas as palavras. Ter todas as amizades, abraçar todas as pessoas. Mesmo que a gente se esforce, que marque na agenda, que viaje dia após dia, que não perca um minuto.

A gente não vai ver todos os bichos, nem sentir todas as dores, nem todas as alegrias. A gente vai viver uma vida só. Então, viva direito! Seja completamente e muito bem esta pessoa que você está sendo. Esteja plenamente presente em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos e em todos os teus sentimentos.

Está temendo gastar tempo nisso? Queria fazer mais? Acha que vai desperdiçar horas tentando dominar cada passo? É assim mesmo. Mas quem fez isso antes de nós nos deu a oportunidade de ‘emprestar’ vidas bem vividas para usarmos de arquivos, de fontes de pesquisa.

Dores profundas e bem sentidas, laços bem feitos. Lembre-se de qualquer um. Lembre-se da sua avó. Não dos dias de senilidade quando ela já estava indo embora. Não. Lembre de antes, dos dias em que ela cuidadosamente se punha nos saltos altos e pintava a boca com uma cor cuidadosamente escolhida. Ela sempre levando a casa, levando a família, levando o marido, mas havia aqueles dias nos quais ela se fazia outra pessoa. E era notada por isso. Vaidade? Talvez fosse a vaidade, mas era antes a descoberta de possibilidades de ser mulher dentro de uma só pessoa. Uma pujança de ser que apela fortemente de modo que não se pode resistir a ele e ele se expressa na matéria. Ora, não julgue. Observe.

Lembre-se de alguém famoso, de um luminar que qualquer um tenha ouvido falar. Alexandre, o Grande; o Khan; uma santa. A vida das pessoas são marcadas pelo quão intensamente no presente elas estavam. No seu presente, no seu agora, aquele presente que coloca as perguntas diante de nós com uma urgência irrefreável para que lidemos com elas. Aquele presente impaciente que não nos permite desviar os olhos ou os pensamentos senão batemos o carro ou queimamos o bolo.

Mas cada um tem que viver somente uma vida, mas pode, de vez em quando visitar a vida dos outros, e em pouco tempo pode experimentar biografias inteiras de outras pessoas. Pode vivê-las em ‘compacto’. Muito provavelmente estas pessoas não ficam pensando que alguém ia conhecer a vida delas, embora alguns mais pretensiosos tenham até escrito diários ou auto-biografias. Mas de fato, no auge da intensidade de suas vidas não imaginaram que você ia querer saber do que passaram. Talvez por isso tenham vivido vidas tão completas, porque não pensavam no que viria, mas em ser completamente, em desatar todos os nós e resolver todos os incômodos.

Viva a sua vida completamente para que ela possa entrar no arquivo como uma vida bem vivida. Descubra o que é para você ‘viver direito’ e faça isto em toda a sua plenitude. Porque a gente só vive uma vez.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Pedro L. C. Araujo

    Excelente!!!

    • Deriana Miranda

      Obrigada, Pedro. Um abraço!