Vir para a terra

3 maio 2013, Comentários 0

DSCN1473[1]Quando se está grávida a gente só pode confiar. Por um lado, na natureza que há de se encarregar com sua infinita sabedoria, de colaborar com tudo o que depender dela para criar um corpo – e o corpo que vem é o corpo perfeito. Ah, passou pela sua cabeça que há muitas pessoas que nascem com questões aqui e ali. Pois aqui em casa se diz: ‘e você, tá inteiro?’ E ninguém está. Em alguma medida vamos escondendo aquilo que não é completo em nós, colocamos para trás da nossa vista, fingimos que não existe e nos tornamos muito bons em algo que completamente disfarça aquele problema. Tem vezes que nem nos lembramos dele e assim vai a vida: podemos usar a fachada do ‘sou perfeito’. Bom, até que acordamos!

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No entanto a composição física que se apresenta para o ser que nasce é como uma encomenda. Não dá para superar-se se não se encara um limite, compreende? E, por favor, não encare nenhuma destas palavras como falta de amor. Não é. É assim que eu consigo expressar minha mais perfeita confiança na ordem universal.

Muito bem, eu falava da gravidez e da confiança. A segunda questão que envolve confiança numa gravidez é com a nossa completa ignorância da pessoa que vem vindo ali. Pois é, não é ninguém da família a quem você já tenha sido apresentado. Ora, isso não é para rir. Quem pode dizer ao ficar grávida que sabe muito bem quem vem ali? No entanto a gente não vê muita gente assustada com isso. A proporção é de você receber em casa um estrangeiro. E pra ficar! Mas não somos muito exigentes neste sentido.

Porém, muito antes de vermos a carinha do bebê que vai nascer, temos um impulso irrefreável de amor. E vamos fazendo o ninho e vamos adquirindo objetos e conhecimentos que nos preparem para encarar suas fragilidades e suas necessidades.

Ainda assim, passados vamos dizer 3 ou  8 anos não podemos dizer que já sabemos quem é que veio. A gente pode até desconfiar. A gente pode até tentar adivinhar, mas o caso é que a pessoa que chega vai se revelando aos poucos. No jeito de se por de pé, de falar, de comer, de olhar. Vai dando pistas, e nós, os pais, os avós, os vizinhos, os professores, ficamos a sua volta brincando de adivinhar: ‘ele é firme, um líder!’ ‘Que doce! Parece um monge…’ ‘olhe o olhar daquela ali. É uma rainha!’. Muito bem, não vamos poder dizer nada nem aos 12, nem aos 20 e isso porque a vida da gente é como música. A gente não conhece a música se não tem a paciência e a curiosidade de ouvi-la até o fim.

DSCN1450[1]Fase após fase se seguem no curso da nossa vida. Fazemos um berço e depois vemos os nossos filhos ganharem a vida sem nós, pelas próprias pernas, e assim é que é bom. Nossa tarefa é garantir que tenham pernas fortes, e uma forte vontade que as direcione. E é assim mesmo que disso depende ainda mais confiança.

É assim que eu tenho sentido o caminho do Liceu Rudolf Steiner: queremos que seja um centro de cultura, um vórtice onde as pessoas que estejam orientadas pela ética em relação ao mundo e aos homens, e que se preocupem com seu próprio desenvolvimento espiritual, gente que tenha como norte permitir e fomentar o autodesenvolvimento de todos os seres, possa trabalhar e progredir no seu caminho.

E vi no Bazar do domingo passado que este convite já abriu caminhos novos, que este ideal trouxe já seres com muita vontade de trabalho e com muitas possibilidades.

DSCN1459[1]Como para um filho, desejamos tudo de melhor no destino desta instituição. Que ela venha com toda a potência e consiga florescer e dar frutos por muitos e muitos anos de uma longa vida produtiva.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.