Viagem no tempo

6 março 2013, Comentários 1

(Quint Buchholz)Os dias passam para cumprir metas: café da manhã, sair às 7h, por gasolina, entregar o documento, trabalhar, levar a filha na psicóloga, escrever na sala de espera, levar a menina para a escola, almoçar, corre trabalhar, trânsito, alcançar a filha antes de que ela pegue o ônibus, trânsito, engarrafamento, acidente, segura o carro para não passar por cima de um motoqueiro veloz, trânsito e volta para casa tarde, come, organiza a agenda para a amanhã e morre na cama.

Todos os dias são iguais – talvez não pegar a filha, talvez não levar na psicóloga, talvez não um motoqueiro, mas os dias são para cumprir as metas, passam incontáveis dias desde que você entrou neste emprego, nesta escola, nesta faculdade. Faz anos desde que você foi morar na sua casa, anos desde que casou, que teve seus filhos,

Puxe o freio de mão! Pare diante do espelho e veja se você se reconhece, se conhece as rugas que tem a volta dos teus olhos, se reconhece a flacidez da tua pele do rosto, se conhece a mecha branca na tua cabeça, na barba. Faça um balanço e olhe para a tua casa, a tinta gasta, as goteiras, no quintal o mato crescido, ou as árvores que você mesmo plantou. O elevador do teu prédio não é o mesmo que você usava quando se mudou para cá.

Olhe para a vizinhança, para a rua, para os prédios que nasceram em volta da tua casa enquanto você se distraia no frenesi de cumprir as tarefas que tem que se cumprir no dia. Todos os teus vizinhos se mudaram, há prédios novos cheios de gente que vem de outras cidades, de outros estados. Há muito mais carros, muito mais pessoas do que quando você veio morar para cá. Para onde foram aquelas mulheres que moravam na esquina da sua rua?

Você viajou no tempo, há mais de uma década que você foi colocado em uma câmara gelada. Você esteve dormindo. Você não reparou no que aconteceu de lá para cá. Não lembra de mais do que dois dias na praia, se é que lembra de algum, você não lembra de ter visto muitas vezes o por-de-sol, também não viu o sol nascer. Quantos dias você foi passear a toa no parque, leu um livro gostoso, ficou deitado na rede? E você lembra?

Você poderia dizer que você não é do tipo da praia, rede, por-de-sol. Mas aí eu te pergunto, quando foi que você esteve a última vez na presença de si mesmo? Honestamente, eu não tenho esta experiência com a frequência que eu queria. Eu não ousaria revelar a distância no tempo que tem da última vez que estive plenamente na presença de mim mesma.

E o que eu quero dizer com estar na presença de si mesmo é perceber completamente a situação do corpo, da saúde, da capacidade física. Também perceber as marcas da passagem do tempo na sua própria figura. Olhar para si mesmo sem demandas nem críticas, só olhar. Perceber se você está tão forte quanto se lembra, ou se a passagem dos anos já roubou um pouco da sua força. Mas com aceitação, só para atualizar os dados sobre si mesmo.

E repare também se as pessoas que você conhece estão muito diferentes do que você se lembra. Preste atenção se os vizinhos estão muito envelhecidos, de cabelos brancos, se muitos se casaram, se tiveram filhos, se há bebês na rua em que você mora. Se dê a chance de testemunhar a passagem do tempo em uma pequena parada. Não precisa deixar de cumprir as tarefas do dia. Metas ajudam, são boas. Enfrentar o trânsito é necessário, levar e trazer os filhos, é um prazer até. Mas pare um pouco, sente um pouco tranquilo e se permita ser testemunha da transformação.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • insistimento

    Atenção. Não temos atenção em nós mesmos e não prestamos atenção nos outros ou no mundo. Como resultado nos envolvemos em um turbilhão de distrações porque de certa forma somos viciados no nosso próprio personagem e não procuramos ter atenção em quem somos ou no que é realidade.