Vai nascer uma criança

30 agosto 2013, Comentários 0

criança na praiaVai nascer uma criança. De repente um laço se faz entre o céu e a Terra. Numa orquestração que, por mais que a gente tente, não descobre todos os passos. E são tão precisos, tão exatos. Quantos ‘quandos’, quantos ‘quems’, quantos ‘ondes’ bem arranjados. Nunca estamos conscientes de todos os passos que nos trouxeram ao momento em que vai nascer uma criança. E justo esta criança. Uma criança que vai, delicadamente, virar nossa vida do avesso e dar-lhe sentido, definitivamente.

Assim, vem uma pessoa para a terra. Um ser humano, um de nós. Do mesmo jeito com que nós viemos – a diferença é que este que vai nascer esteve há bem menos tempo longe daqui. Que notícias ela traz? Que novidades? O que ela vai pensar do mundo em que chegou? O que ela vai fazer deste mundo?

Mas ainda é cedo. Ela virá em um corpo frágil, macio, vulnerável. E compacto em sua forma. Olhando para ela desconfiamos que ela mesma não cabe dentro do corpinho em que se mostra. Talvez seja maior, mesmo. Talvez ela esteja realmente em toda a sua volta, dentro das coisas que a rodeiam, dentro de nós, até. Neste momento descobrimos que não adianta a gente se vestir bem, passar uma boa base no rosto, retocar os cílios, combinar o batom com a roupa. Descobrimos que ter um carrão e uma namorada linda não interessa. O enfeite e a superfície não importam para ela. Ela sequer enxerga o que nos cobre, ela não vive na aparência das coisas. Neste momento percebemos que aquela criança é capaz de penetrar o que sentimos e o que pensamos. Ela consegue penetrar além, consegue perceber quem de fato nós somos e o que estamos fazendo aqui.

A partir de então você começa a se esforçar por ser digna deste olhar tão penetrante. Não adianta escolher a roupa, agora é escolher o pensamento certo, e o sentimento que condiz com o momento. Agora se trata de por rédeas para não ser arrastado pelas emoções e dar um bom exemplo de autoridade sobre si mesmo para aquela criança que está nos olhando.

O mais comovente é que ela não nos julga nunca. Ela testemunha a nossa batalha na vida sem jamais ter um olhar de crítica ou reprovação. Você sabe se você é vaidoso ou invejoso. Você sabe se carrega ódio ou se alimenta ideias ruins contra as outras pessoas. Você sabe se está enganando ou não, mas até ali você se imaginava sozinho e relaxava na desculpa que a “vida é assim” e “ninguém é perfeito”.

Mas agora ela olha para você confiante. Você reconhece limpeza no olhar desta criança. Ela não pede que você mude em nada, no entanto você não pode ser quem era antes!

Na sua fragilidade, ela nos exige cuidados: ela precisa comer e dormir, ela precisa aprender a dominar o seu corpo. Enquanto isso, notamos que ela nos examina em detalhes: ela nos imita os passos, as palavras. De repente somos lançados pelos olhos da criança, violentamente, face nossos piores hábitos – da falta de ritmos, da falta de critérios, da falta de amor. Ouvimos de nossa boca palavras ácidas contra as pessoas, flagramo-nos comendo repetidamente aquilo que nos faz mal, somos hipócritas, mesquinhos, invejosos. De repente nos damos conta que somos moralistas e exigimos do mundo todo, de todas as pessoas muito mais do que somos capazes de fazer.

Não, a criança não nos diz nada, ela nos espelha, ela aprende a lidar com o nosso mundo pisando nossas pegadas e é por isso que cada uma delas nos parece tão importante agora. Não cabe mais a imoralidade, não cabe mais a autoindulgência. A demanda é o trabalho interior para que a criança possa, pelo menos, ter um testemunho de comprometimento com a verdade, com aquilo que é melhor.

No fim do dia ela dorme em nossos braços. Descansa em absoluta confiança. Somos alvo de seu amor ilimitado. Em tudo ela nos imita devotadamente. E por isso nos tornaremos de fato melhores. Para indicar para a criança caminhos mais bonitos que os nossos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.