A Urgência

17 janeiro 2014, Comentários 0

vontade de abraçar o mundoHá urgência. Há urgência de terminar a tese, de pagar a escola, de levar as crianças. Há urgência da manicure, do espelhamento do carro, de trocar pelo modelo novo. Há urgência que não conseguimos justificar e que estão nos outros: a urgência do cabelo, a urgência do dinheiro.

Eu não posso dizer nada, também tenho as minhas guardadas. Umas que dão vergonha, outras que atiçam a vaidade. Mas as urgências são todas iguais: é preciso fazer hoje! É preciso fazer agora! É urgente hidratar os lábios, é urgente limpar a casa, é urgente curar a anemia, é urgente lavar as crianças, entregar os exames, ler o jornal e… não atrapalhe, tem coisas na fila: tem a guerra no Oriente Médio e a escravidão pelo mundo, e tem as focas e tem o degelo, o regelo, o superaquecimento. Não há como parar.

É mesmo urgente, eu reconheço. Mas somos pequenos e estamos espalhados, e nas nossas urgências nos esquecemos que poderíamos dar as mãos aos nossos vizinhos e cuidar ‘só’ da nossa vizinhança, ‘só’ das nossas crianças, cuidar ‘só’ dos nossos maus pensamentos e maus sentimentos e nossa língua ferina e de nossos olhos.

Percebemos uma urgência e há mesmo urgência em tudo, mas não sabemos como aplacá-la, não sabemos o que lhe tapa a boca que só aumenta e um dia nos engole!

E as vezes no meio da minha respiração ofegante, no meio da tontura, das lembranças da lista interminável eu paro. Há o Sol, e o vento bate manso e a rua está vazia de maldade. Da porta da frente minha vizinha me acena e a horta está bonita.

E as meninas prostituídas da Índia? E os Afegãos ilegais da Alemanha? E os mexicanos sendo pisados na Califórnia? Como é que se faz se a gente não estiver todos os dias da nossa vida longa preocupados com eles? Que injustiça, que peso, que imoralidade, que egoísmo!

É preciso parar tudo. Parar o giro do mundo, nossa pressa descabida. Nós somos muito maiores que tudo isso. Cada um sendo pequeno como é diante do mundo é capaz de abraçá-lo inteiro. Minha mais modesta vizinha me diz que ora por nós todos os dias! Pense o que é isso! Enquanto há gente que gasta horas preocupado com a desgraça que vê sempre na televisão, no rádio, no computador. É preciso ocupar melhor nosso tempo e descobrir o que de fato vai fazer o mundo girar para o lado certo.

Eu sei que é preciso muito mais amor para tudo isso. É preciso que a gente consiga vencer as forças da violência que moram dentro da gente, é preciso que a gente não prostitua nem escravize dentro da nossa vida e ensine nossos filhos e tudo isso vai ser devagar.

Mas além do devagar do todo dia. Além da nossa imprescindível necessidade de cuidar daquilo que vai dentro e que leva a vida. No instante de agora, é possível mudar tudo! No instante de agora é possível ter uma percepção clara de que a felicidade é para todos.

É mesmo urgente, mas precisamos descobrir o que é que nos cutuca, porque o que nos cutuca tem que ter resposta certa.

Sei lá que resposta dar. Meu plano é preciso que a gente se arme com ondas ininterruptas de amor que invadam todos os espaços e surrem os maus pensamentos e as ideias imorais. É preciso que a gente seja capaz de avalanches amorosas que irrompam por todos os quartos, por todos os segredos, por dentro dos nossos ossos de tal forma que não haja em mais ninguém nenhum espaço para hipocrisia, mentira ou culpa. Que cada um consiga enxergar com clareza a inegável fraternidade entre todos os seres. Enxergar-se um com o todo e criador da realidade de agora.

É como disse Rudolf Steiner “É urgente ser um mar de amor.”

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.