Uma fieira de experiências

14 julho 2014, Comentários 0

Orange_Gardens_Divulgacao_4Pois bem, você já ralou o joelho, bateu com a cabeça, prendeu o dedo, passou frio por esquecer a blusa, fez xixi na calça e deu uma topada? Eu sei que não consegui enumerar todas, mas nós todos estamos passando por uma fieira interminável de experiências – sempre as mesmas! – Durante a nossa vida.

Mas não são só experiências ruins, não se preocupe: você também já voou das mãos do seu pai, foi abraçado carinhosamente, deu o primeiro beijo – uma série de beijos maravilhosos! – você amou alguém, ganhou um presente, deitou-se em uma cama quentinha, bebeu uma bebida deliciosa, comeu pãozinho da hora.

É assim: experiências as mais diferentes são comuns a todos nós. Alguns tem uma ou outra especial em sua vida, mas em geral, corremos pela mesma fieira e acabamos com um vocabulário comum sobre o qual sabemos algo profundo.

Mas para quê?

Com o que estamos lidando quando vamos construindo este conhecimento de mundo entre prazeres e dores? No momento em que experimentamos algo bom, queremos repeti-lo, assim como no momento em que experimentamos algo de mau, não queremos que nunca mais algo assim nos aconteça. Nossas experiências reais tornam-se depois expectativas e medos.

E a gente as guarda pelo resto da vida entre gostos e desgostos, entre parâmetros para viver bem – feliz, como todos queremos viver. E vamos colecionando impressões para nos ‘armar’ diante do mundo.

Transpomos o resultado de experiências para outros campos: se fiz isso e resultou em uma raladura, vai ser igual. ou proporcional se fizer aquela outra experiência – e não a fazemos. Assim como passamos a perseguir experiências que nos elevem e nos façam sentir prazer. Isso é para todos.

No meio da vida as vezes, você conversa com alguém que está passando por uma experiência com sofrimento. Como você já passou por ela – vamos dizer: uma prova na qual se tira uma nota baixa na escola, por exemplo, você tenta mostrar para aquela pessoa mais nova que aquilo é mínimo, quase indolor, e que aliás, pode ser contornado sem nenhum trauma.

No entanto somos todos pessoas diferentes: alguns de nós se apoiam em certas experiências para fazer colunas mestras enquanto outros largam-nas pela vida sem dar-lhes a menor importância.

As experiências são as mesmas, mas as pessoas não. Elas tem uma linha mestra para seguir. Elas mesmo dispuseram seu espírito para absorver aquele tipo de registro de tais ou quais experiências. Enquanto prender o dedo para você pode não ser nada, e você até arriscaria uma brincadeira semelhante àquela que te levou a prender o dedo a primeira vez, outra pessoa daquele momento em diante evita fechar as portas sem a devida atenção e cuida de não se apoiar onde possam passar as pessoas e esmagar-lhe o dedo.

Não é a experiência, mas a avaliação pessoal que é diferente.

Entre nossos gostos e desgostos vamos construindo limites para o experimentável.

Limites. No fim somos nós mesmos que os construímos – com os mesmos tijolos que os outros fizeram corredores, labirintos, escadas, nós construímos limites.

Passamos uma boa parte da vida determinando distâncias, cortando as pontas, achando o melhor espaço. Mas tem vezes que estamos com os cotovelos endurecidos, dobrados por muito tempo, que temos vontade de olhar além do muro, que precisamos nos esticar e sofremos porque sentimos a dureza das paredes que nos apertam.

Mas somos nós quem as criamos, a partir do que trazemos das experiências – destas frescas desde a nossa infância e de outras, talvez, mais antigas. Com elas nos conformamos, mas se fomos nós mesmos que construímos nossos limites, basta querer desfazê-los para que eles caiam aos pedaços e a gente possa conquistar novos espaços.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.