Uma Compreensão Maior

11 julho 2014, Comentários 0

Chagall_David_HarpEstamos habituados a lidar com as coisas com uma certa objetividade. Para escrever? Caneta! Para beber café? Xícara. Tomamos as coisas nesta relação de funcionalidade. Livro? Cadeira? Garrafa? Tudo tem uma função. E de vez em quando – quando aparece uma criança inquieta, ou quando afrouxamos nossa consciência com um gole uma bebida mais forte, daí nasce em nós uma capacidade de brincar com as coisas. Podemos transformar as garradas em flautas, a cadeira em locomotiva e o livro… bem, não me ocorre em que o livro se transformaria a uma hora dessas. E por quê? Porque estou sóbria e não vou me dar ‘ao desfrute’ de ficar ‘brincando em serviço’.

Pois é. Tem hora para tudo, não é? E a vida corre a largas passadas. Não podemos ficar brincando tendo que trazer o pão para dentro de casa, mandar as crianças para a escola e tal. E vamos nos achatando na nossa capacidade de brincar com as coisas. De encontrar nelas, por exemplo, suas ocultas potencialidades físicas – de ressonância, por exemplo, como da garrafa, e simplesmente se apropriar disso e … jogar, brincar com isso.

Mas, além das capacidades físicas – da possibilidade de brincar com sugestões das potencialidades dos objetos que jazem ocultas aos olhos utilitaristas, ainda a garrafa, o livro e a cadeira não se revelaram completamente para nós. Ao bebermos o café na xícara e a largarmos suja na pia, não reconhecemos mais do que a ‘xícara para beber’, se por acaso notamos na xícara a capacidade sonora ou escorregamos esta xícara pelo balcão como uma bola de jogar bocha, ou se a empilhamos com outras para conformar uma máscara tridimensional ela nos revela ainda algo externo a ela.

Ela brinca com a gente um pouco, também, mas não conta nada de fato de si mesma. É como se a tocássemos sempre do lado de fora. Como se jamais o objeto se revelasse.

E xícara, livro, cadeira, não passam de objetos inanimados e portanto passivos a nossa vontade. Não é assim?

No entanto, se tivéssemos curiosidade de saber do outro lado do objeto, conhecer o que há ainda para lá, precisaríamos nos conter e permitir que o objeto viesse a falar para nós. Teríamos que abrir espaço para o que não está evidente se manifestar para nós, dentro da nossa alma.

Mas somos apressados demais para abrir espaço para as coisas. Temos pressa de continuar – embora já tenhamos adivinhado que não estamos indo a lugar nenhum.

Talvez seja por isso que consigamos tolerar a existência da xícara e da cadeira. Elas servem a propósitos objetivos e não nos perturbam com espaços abertos e sem rumo.

Há coisas insuportáveis no mundo. Quanto mais próximas da inutilidade, mais insuportáveis elas ficam. Tome como exemplo um conto de fadas. Há coisa mais irritante do que um conto de fadas? Serve para quê? Para contar na hora da criança dormir? E vale a pena aprender um conto inteirinho se a criança nem o ouve até o final?

A natureza, sim, mas os contos, como as obras de arte tem esta capacidade irritante de não servir a nada – são imagens que se fundem a uma escuridão em nós, a uma parte não iluminada e que, no entanto, tem um efeito poderoso sobre nosso estado geral.

É possível achar uma peça musical ‘bonita’. ‘Curtir’ um quadro, achar uma florzinha ‘uma riqueza’. Mas elas são frestas para dentro de nós mesmos. E cada uma, calada que esteja, cada uma delas abre uma fresta para dentro de nós mesmos. São vãos e rachaduras na nossa identidade diária – na nossa fachada objetiva e apressada que mostram que lá dentro tem aluma coisa latente para desabrochar. Tem que ter paciência, tem que se expor. Mas vale a revelação. Vale a retomada de sentido na caminhada comum.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.