Um Pai para Você

20 setembro 2013, Comentários 0

capela_sistina_adaoLi ontem dois textos a respeito da figura do pai. Um do Boff em que ele, naturalmente com mais propriedade e palavras do que eu, alerta para o resgate da figura do pai. Outro do Gustavo Ioschpe, na qual ele se mostra ressentido pela falta de virtude na nossa sociedade.

Fiquei entusiasmada com o artigo do Boff. Ele não tem filhos seus eu acho. Quase sempre eu digo de quem não tem filhos que esta pessoa não tem propriedade para falar. Mas o Boff se saiu de uma maneira maravilhosa: apontou para o olhar dos outros, da sociedade, de Freud e mostrou que na deterioração em que a gente anda não dá para contar com pessoas muito melhores frequentando o mundo.

O que ele faz? Ele defende a reconstrução do pai como elemento condicional para a sociedade se aprumar. Quem não tem pai não tem limite, ele diz, não tem convite para ir ao outro, o que eu digo: está condenado ao egoísmo. Que tem pai tem que ceder ao outro, recolher-se para que o outro possa viver também. Como, aliás, ilustra o próprio Gustavo Ioschpe no seu artigo. Mas este sujeito se ressente, ele sofre porque amarga as dificuldades que os outros têm. Porque se exaspera com as dificuldades que a vida em sociedade traz.

Ele se pergunta se deveria educar os filhos como o pai o educou, e conclui que é assim que deve ser, pela memória do pai e por imaginar que em anos o Brasil se terá tornado um país de pessoas melhores. Eu não acho que a gente deveria fazer o investimento da educação com esta perspectiva. O ser humano está diante de nós hoje.

Enfim, talvez seja como ele diz. Talvez seja diferente. A paternidade é uma perna de sustentação dos seres humanos. Negá-la é como privar a pessoa dessa perna, ou pior, de um órgão de sentido. É mutilar a inteireza do ser humano negar-lhe a educação. É puni-lo antes mesmo de ele ter cometido os crimes pela falta de parâmetros e de percepção.

E a vida priva a gente do pai, as vezes, a gente fica mesmo manquitola. No entanto aparecem no curso da nossa biografia um sujeito que assume este papel, ou a quem conferimos a paternidade como uma comenda, e que nos serve e servirá de parâmetro, de régua, para o resto de nossas vidas.

É importante contar com isso também: somos capazes de escolher pais no mundo. Temos o nosso em casa, se temos sorte; temos o pai na ação de uma mãe, talvez; as vezes num professor, as vezes num padre. As vezes, porém, nos falta um pai próximo e então temos que ir para a vida e nunca falta um sujeito digno da investidura de pai. A gente então tem a alegria de encontrar um homem extraordinariamente correto como um Mandela, um Gandhi. E por não termos parâmetros na terra chegamos diante deles mancando, e eles nos mostrarão a força da humanidade rendida à sua maior grandeza. Isto é maravilhoso.

É da nossa inteireza a figura paterna. Claro que quando a gente nasce tem uma ligação biológica com uma pessoa. Tudo isto te traz um lugar no mundo, uma herança, uma cultura. No entanto, se olhamos objetivamente, o nosso pai somente assume o papel de pai, quando ele nos falta porque morre, porque nos abandona ou por qualquer outro motivo, podemos contar com ele dentro da nossa própria estrutura humana. Isto é o que penso: temos este personagem em toda a sua força dentro de nós mesmos, na nossa humanidade, e isto, com certeza, nos redimirá até o final.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.