Ubuntu

23 março 2013, Comentários 1

ubuntuMinha família guardava um indisfarçável orgulho de ser diferente. Desde bem criança me lembro de ir a reuniões de família e ser olhada de lado. Ou com pena pelos que nos achavam filhos de gente doida, ou com desconforto pelos que não conseguiam estar bem conosco em suas casas.

Comíamos diferentemente – nada de carne; falávamos diferentemente, usávamos palavras esquisitas, não as comuns que todo mundo usava todo dia, mas palavras que indicassem que sabíamos do assunto tratado como ninguém; e falávamos de assuntos que ninguém conversava, filosofávamos, falávamos sobre religião, sobre a evolução humana! Claro que logo percebemos que estas conversas não eram para qualquer um, que não deviam ser abertas nas salas das casas alheias, e depois então nos calávamos, mas guardamos sempre aquela sensação de ser o depositário de um tesouro, éramos os escolhidos. Isto parece arrogância?

Quando eu era bem pequena eu achava que nós éramos o máximo, a nata, a cereja do sunday.

Só que, se as pessoas em volta não estavam confortáveis, nós também estávamos sempre a pisar em ovos. Como é que se faz amigos se não se come a mesma comida nem se falam dos mesmos assuntos? Éramos alienígenas, decerto? Éramos estrangeiros que não podiam entender a língua dos outros?

Crescemos julgando ferozmente todo o agir dos outros: a falta de cuidado ecológico – como é que misturam o lixo, que jogam fora a água da lavagem da máquina, que cimentam o quintal das casas? Como é que comem carne de animais, que se entopem de gordura e açúcar, que bebem e fumam?

Além disso, como é que ouvem estas músicas pobres, sem poesia nenhuma, como é que colecionam discos destes sujeitos que se dizem artistas? Como é que não leem um livro, que se cercam de gibis, de revistas de fofocas? Como é que gastam dinheiro em comprar carros ou roupas? Como é que podem ser assim tão fúteis se no fim das contas a humanidade precisa de oração e sacrifício?

Íamos fazer visitas no domingo e lá estava a televisão no centro da sala, no centro da conversa. Mas que indigno de um ser humano se deixar engolir pela mídia, pelo comércio barato dos programas de domingo. Como é que alguém podia tolerar aquela mulherada dançando atrás de um homem que empilhava besteiras uma atrás da outra nos ouvidos de milhares de pessoas?

Chacrinhas, Sílvios Santos, Gugus, Faustões eram para nós a coisa mais repugnante, e por isso evitávamos as visitas de domingo.

E músicas americanas? Os refugos de um país consumista de cultura completamente diferente da nossa que nos eram empurrados goela abaixo e as pessoas não reagiam! Que acinte! E nós nos achávamos tão preciosos, os últimos cavaleiros do templo que ainda lutavam pela honra e pela pureza…

Como criança eu repetia estes julgamentos com uma propriedade assustadora. Carreguei verdades assim por muito tempo, até que eu percebi que não é de fato preciso comer carne ou assistir ao Sílvio Santos, mas é muito importante estar dentro do grupo, amar o grupo em que se vive.

Não existe evolução humana sem compartilhamento, sem acolhida. Lá pelas tantas descobrimos que existe a arte, a religião a filosofia, a ciência. Precisamos auxiliar a humanidade adiante em seu caminho, que precisamos ser agradecidos pelo que recebemos como homens, e achamos que isto não tem nada a ver com o que vivemos todos os dias!

No fim queríamos curar os outros daquilo que era doença em nós. Decidimos que o que acometia a humanidade era o que nós julgávamos ser errado, e não conseguíamos mais abraçar as pessoas com naturalidade e perceber que elas também estavam trabalhando para melhorar, para ser melhor pai, melhor filho, melhor esposa, melhor colega. Pensávamos que nós é que estávamos certos porque tínhamos escolhido o caminho correto!

E entramos então na fila de quem segura a evolução da humanidade, porque julgamos, condenamos, criticamos, porque fomos inclementes, incapazes de compaixão ou de acolhimento. Simplesmente fomos arrogantes e não percebemos que era para caminhar junto e só. Apenas acompanhar. De que adianta estar na frente? Ubuntu! A humanidade é todo mundo, afinal.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    A gente sempre acha que está certa, e está até enxergar outro caminho.