Tradução

31 março 2014, Comentários 0

multidãoNós vivemos entre os outros. Vivemos do que os outros dizem, do que os outros pensam. Somos levados a crer que estamos sozinhos, mas é porque usamos uma touca funda que nos cobre a percepção lúcida dos olhos e ouvidos e simplesmente temos o contato do coração e da mão dos outros.

Esquecemos os outros porque dentro da nossa touca nos passam imagens dos nossos próprios pensamentos, nossas criações, e estas – nós nem desconfiamos! alguém nos sussurrou nos ouvidos, ou vimos de relance segundos antes de cobrirmos o rosto.

Mas nossa cegueira comum não nos faz por isso incapazes – somos amorosos uns com os outros e tanto quanto possível oferecemos as melhores sensações para que as pessoas se sintam bem. Tomamos nossos filhos no colo e cantamos nos seus ouvidos as músicas mais suaves embalando-os no ritmo mais confortável. Nós abraçamos nossos companheiros e os amamos com desejo de que se sintam acolhidos, compreendidos, seguros.

Também nos agredimos porque nos frustramos. Tropeçamos porque não percebemos perfeitamente as coisas, mas confiamos tanto no que nossos olhos vêem que nem lembramos que estamos com a vista coberta – e atropelamos os outros, e os maltratamos.

Sabemos o caminho de cór – de modo que não nos faz falta não vê-lo. E entramos e saímos pelos prédios que construímos com certeza de que tudo vai bem. Não fosse a pressa, o cansaço, a doença. Não fosse a falta de propósito.

De vez em quando uma pessoa rasga um furinho na touca. Com esforço ela entrevê os outros andando seguros e porque rasgou a touca consegue entender que os liames entre as pessoas não são da cabeça, senão das mãos e do coração.

Mas o drama humano é que um vê e não sabe dizer, o outro ouve, e não tem certeza do quê. Quando estes se juntam, precisam descobrir um meio de traduzir o que perceberam pela metade, mas que lhes deu a certeza de que é o caminho ideal para a liberdade e para a felicidade de todos os homens. Quem sabe esta língua?

Estamos neste ponto! No ponto da criação de uma linguagem que traduza o óbvio, que de alguma maneira todo mundo intui, mas que ninguém ainda tornou evidente.

Mas para isto vamos ter que abandonar nossas bibliotecas, abandonar nosso falar, abandonar nossas certezas. Precisaremos sair de casa e nos expor ao vento lá de fora. Precisaremos admitir que além de nós há quem de fato enxergue o mundo. Precisaremos perguntar às crianças que nem colocaram a touca ainda o que é que existe além. E teremos que confiar no que dizem.

Esta é a graça do nosso tempo. Precisaremos virar as costas para nossas preciosas compilações de dados, armazenadas nos prédios mais altos e dar as mãos às crianças pequenas de mãos macias e passos incertos. Teremos que caminhar descalços sobre a terra. Teremos que usar como guia as palavras poucas e outros sinais que nós nem adivinhamos e que as crianças vão nos ensinar.

E não estão preocupadas! Elas não percebem que vai chegar o fim do mês, que virão as contas, que virá o chefe, que não foi cumprida a meta. As crianças não vem que é já hora do almoço e que temos que voltar a tempo! As crianças não se prendem no tempo! Mas por que é que nos estamos firmando nelas? Elas não desconfiam sequer do tamanho da sua responsabilidade de serem guias.

E assim, muitos de nós nos encolhemos nus na beira do caminho, soltando da mão das crianças, desconfiando da nossa intuição que elas viam e nós não. E vamos retornar para casa, colocar os que restaram em frente ao computador para que se distraiam destas ideias que de vez em quando surgem. E vamos voltar ao trabalho, ao almoço, apresentar metas cumpridas.

Mas haverá outros que se abaixarão e terão suas toucas retiradas pelas mãos das crianças – e estes vão poder no final do caminho rir e celebrar.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.