Todos por você

8 agosto 2013, Comentários 0

LanternasFlutuantesVocê pode ser dessas pessoas preocupadas em se aperfeiçoar nas coisas que faz. Bom, eu tenho uma novidade para você. Não vai dar tempo! E isto não é uma afirmação pessimista. Você não está sozinho no mundo. Olhe a sua volta. Há crianças nascendo todos os dias, há os seus irmãos, pais, tios, avós. Há a sua esposa, seus filhos. Agora tire uma fotografia do seu cotidiano, olhe um dia, talvez uma semana de um ponto de vista distante, simplesmente anotando para cada personagem da sua vida mais próxima o que fazem do seu tempo. Cada um deles está aprimorando um detalhe na própria vida que é um presente dedicado a todos os outros membros da família: disciplina, modéstia, agilidade, correção, flexibilidade, tudo o que você pode imaginar que seja virtude no mundo, alguém está neste momento trabalhando.

Anote lá: na sua vida há talvez uma mulher – sua sogra, sua mãe ou uma avó que está dia após dia fazendo uma colcha. Ela levanta cedo todos os dias, talvez faça uma oração ao acordar, se lava, se veste, prende os cabelos com cuidado, talvez passe

creme nas mãos. Ela toma café sozinha pois é viúva e os outros parentes da casa se levantam bem mais tarde. Lava a pouca louça que usou e a deixa no escorredor, e já prepara os aparatos para o café dos outros. Ela vê o sol nascer todos os dias por uma janelinha estreita do quarto dela, pega a agulha de crochê e faz uma colcha que você poderia dizer está durando anos para acabar. Ela quase não conversa e quando chegam as crianças pequenas ela deposita o trabalho ao pé da cadeira em uma sacola e as fica admirando ou pega uma no colo. Qual é a tarefa desta mulher nesta vida? Está vazia a vida dessa senhora? O que ela pensa e o que sente ? Nada disso aparece para você, você só consegue anotar do cotidiano desta senhora a lida diária que ela faz há muito tempo.

Ou você pode ter um pai ou um sogro, um avô ou um vizinho numa situação parecida. Um homem que talvez saia de manhãzinha para ir buscar o pão na esquina, que dê comida para os pássaros na calçada, leia um jornal. Talvez ele goste de arrumar brinquedos e tenha uma mesinha que use de oficina, com um canivete. Ele está quase invisível para você que tem que entrar e sair de casa correndo todos os dias. Nada se vê do que ele pensa ou sente. Não é sua tarefa registrá-lo, porém.

E há a sua esposa. Ela cuida dos seus filhos, entra e sai da casa para levar um para a escola, volta para recolher a roupa e lava a louça às pressas para sair trabalhar. Ela lê livros, faz pilates, vai à casa de amigas para reuniões semanais todas com filhos – você imagina o que elas podem fazer nestas reuniões com tantas crianças. Às vezes pede para você ficar com as crianças para que possa voltar mais tarde. Ela desenha muito bem e muitas vezes você encontra um caderno de desenho pela casa com bonitas e coloridas figuras que ela está sempre a desenhar.

Ou lá está seu esposo lendo como todos os dias. Ele tem uma mesinha no canto da sala na qual reúne suas preocupações do dia, seus livros de leitura. Sai para reunir-se com os amigos dois dias por semana. Ele se exercita pela manhã descalço na grama do jardim. Trabalha muito e até tarde quase todos os dias. Joga xadrez com sua filha.

Cada pessoa que você conhece mostra algum fazer constante, diário. Se prestássemos um pouco mais de atenção poderíamos apontar os talentos destas pessoas para fazer certas coisas em particular e inevitavelmente perceberíamos alguns vícios que todas tem. Todos temos. O caso é que estamos no processo de limpeza, de largar nossos vícios e aprimorarmos virtudes. E levamos a vida fazendo isso. Levamos várias vidas, há quem diga. E é conveniente, mesmo que sejamos muito dedicados a isto, porque me parece que todo o trabalho que eu faço, cada passo que eu dou mais longe eu dou pela família inteira.

Dominar a violência no meu agir tem repercussão em toda a minha família – na ação de cada um, e mesmo depois da minha morte, a minha conquista permanece. Se alguém faz dez minutos de meditação por dia este alguém conquista algo também para mim. Se alguém se esmera em fazer trabalhos manuais com beleza e disciplina, este alguém conquista esta capacidade para mim, também. Se consigo fazer parte de um grupo de trabalho, eu conquisto virtude para todos, também. Tudo isso passa a ser conquista coletiva.

De algum modo somos herdeiros dos maiores esforços do ser humano, das dedicações mais intensas. E mesmo que nenhuma destas pessoas tivesse chegado a perfeição na sua missão, ou se chegasse, mas falhasse em outros aspectos da vida, ainda assim ele teria feito grande coisa. Você também, aliás.Você poderia dizer que não é suficiente. Não tem dentro da sua casa quem se dedique a todas as artes que você gostaria, a todos os esportes, a todos os conhecimentos que quer dominar. Pois é. Nossas famílias são pequenas, de fato. Mas a humanidade é grande. Há 7 bilhões de pessoas tentando melhorar todos os dias. E se há vizinhos que você pensa que estão mais estragando do que colaborando para o crescimento da humanidade eu afirmo que você não os conhece direito. E há também São Francisco, Gandhi e Nelson Mandela. Há Sócrates e Baryshnikov, há Villa-Lobos e Picasso, há Leonardo Boff, Madre Teresa e Fritjof Capra. Estamos cercados de uma profusão imensa de seres fantásticos dando passadas largas. Tudo o que qualquer um destes luminares fez ou faz de sua vida é uma conquista para cada um de nós. Cheguem elas a nossas vidas nas aulas de matemática da escola ou se impregnem na nossa cultura ou nas leis.

E há que se lembrar que cada um de nós está sempre no seu limite da capacidade. Todos nós estamos sempre no nosso máximo. Mesmo aquela pessoa que não tem disciplina, que você acha mentirosa, ela também está no seu limite da capacidade de lidar com as virtudes humanas e a ela também, como a você a gente precisa agradecer pela colaboração. Confie. É o efeito da soma de várias lanternas se somando para trazer luz.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.