Todas as Portas Abertas

6 julho 2014, Comentários 0

Courbet o Homem DesesperadoÉ impressionante a quantidade de meios que existem para a gente se encontrar nesta vida. Se encontrar no sentido de deixar de estar perdido, querendo um rumo.

A gente não quer estar sem direção, não quer ficar de castigo na vida, quer outra alternativa. E vivemos a procurar portas que se abram para que a gente consiga escapar. E portas há muitas!

Mas afinal, o que é que atrapalha? Atrapalha ter tantas informações – todas ao mesmo tempo se trançando na nossa frente – tudo interessante, tudo atraente. E ao mesmo tempo, vazio.

Atrapalha a gente ter tantas alternativas de caminho e nunca escolher nenhum. O que atrapalha, mesmo é a gente não tomar uma decisão.

Hoje mesmo eu estava pensando em como a gente consegue lavando a louça ou lendo um livro, livrar a mente dos vinte e cinco mil caminhos diários disponíveis para se optar. E isso exige somente que a gente esteja lá, lavando mesmo a louça, lendo o livro de fato. Está bem, por ser alguma coisa mais extraordinária: ir para o Tibet, abandonar a família, deixar o emprego e ir fazer serviço voluntário em um leprosário.

Mas vamos a nossa vida ordinária: vamos tratar da louça e do livro. Porque aquilo que está acontecendo neste instante com tudo o que você é precisa estar consciente por você inteiramente. Se você lê um livro e ao mesmo tempo se dedica a outras atividades, tudo o que tem no livro escorrega pelos cantos de você, deixa impressões que você não percebe direito, nem percebe tão bem o que causam. Enfim, te escapam.

Se você está vagueando em pensamentos enquanto lava a louça, o lavar da louça não te toma inteiramente. Talvez a louça não seja lavada como devia – talvez seja, isso não importa. O que importa é que você não sai da louça como devia! Todos os seus gestos enquanto você lavava a louça foram automáticos, quase totalmente inconscientes, e a louça lavada não tem o mesmo efeito sobre você que deveria.

Quando se termina a louça ou o livro sem que se esteja absolutamente inteiro, perde-se desta experiência a percepção correta do ‘antes e depois’, perde-se a oportunidade de se perceber a si mesmo antes da experiência e depois dela, na ausência  de se estar praticando aquilo. Perde-se enfim, a oportunidade de se determinar quem se é quando se está diante daquilo.

E somos sempre vários e isso nos permite tantas possibilidades! Mas se lavamos a louça pensando no livro, falando no telefone, planejando ainda outra coisa, jamais terminamos qualquer destas coisas em nós. A louça fica eterna – embora superficial, o livro não acaba nunca, uma coisa se interpõe a todas as outras coisas e ficam liames que se prendem a novas experiências em um mar infindável.

Mas na louça está uma porta aberta para um caminho. No livro uma outra. No banho, em uma conversa. No silêncio.

A cada momento o universo prodigaliza infindáveis experiências – que são caminhos para se achar – mas nos quais nos perdemos, justamente por serem tantos!

É preciso escolher um caminho. Um só, de cada vez. É preciso vestir-se de uma roupa somente, e usar somente um par de sapatos. É preciso fazer uma tarefa de cada vez.

Talvez tenhamos nos acostumado a fazer a primeira parte do trabalho, que é a de procurar saídas, opões, atalhos para se sair de onde está. Mas acabamos condenados a estar sempre atrás destas portas e janelas para a saída. No entanto, ao deparar com estas portas e janelas, ficamos estáticos. Não sabemos o que deveríamos fazer a seguir. E ao invés de enveredarmos por este caminho que se abriu, saímos de novo e de novo atrás de um novo caminho.

E ficamos perdidos, rodeados delas. Há tantas portas e tantas janelas para sair. Em cada metro quadrado. E ali, além da porta, há ainda uma sala com tantas outras portas e janelas. Torna-se irresistível. Torna-se um vício.

E nós nos vamos esquecendo diariamente como é estar inteiro, seguindo por um caminho, depois de ter passado pela porta.

 

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.