Todas as partes de mim

11 março 2013, Comentários 0

pedalina

Hoje eu me apercebi dos mundos paralelos em que a gente vive: no momento mesmo em que está de luto você está rindo de uma piada. No momento de um abraço gostoso você está com dor nas costas. No momento de uma leitura ocorre uma ideia fantástica para a tua empresa. Alguém poderia dizer que isto é não ser inteiro, isto é fragmentação. Eu já penso que não. Somos seres de diversos mundos, de diversos reinos.

Enquanto cuidamos de nos alimentar nossa natureza sentimental se atravessa na mesa. Alheamo-nos por uns instantes da comida e mergulhamos em um mundo de anseios ou de memórias. Eles nos trazem lágrimas aos olhos, ou prendemos a respiração sentimos uma alegria incomparável.

Voltamos a olhar o prato. Espetamos um macarrão com molho e o colocamos na boca. Pensamos sobre a forma do macarrão que nos traz um impacto estético, ou não e largamos as rédeas da imaginação para pensar um desenho melhor para a massa. Na memória temos dezenas de diversos tamanhos… Sentimos que estamos satisfeitos, largamos o prato e dedicamo-nos a limpar a cozinha. Conversamos com nossa mãe, com nossa filha, sem pensar em nada. Vamos lavar a louça.

Prato após prato, caneca após caneca, talher após talher cuidamos para que sejam limpos e bem enxaguados. Podemos colocá-los em ordem no escorredor, voltamos aos pratos que ficaram ao lado e, de repente atravessa nossa mente a conclusão para o mestrado! Deste jeito, sem nenhuma ligação com o macarrão, sua satisfação com a comida ou com a louça. Seu mestrado é sobre genética, sobre pedagogia, sobre sei lá o quê e você não sabia como trazer o fechamento, mas naquele momento aparece a ideia, a solução, um resultado que ficou dormindo por muito tempo sob uma coberta grossa e que naquela hora acordou.

É deste jeito que somos. Precisamos deixar as coisas descansarem. De repente emergem resolvidas.

Acontece que existem como reinos que se relacionam com cada parte de nós. Poderíamos figurar isto falando do quanto é significativa a cor para os nossos olhos, as formas visuais, as texturas, enquanto que para nosso olfato não significam nada. Para os ouvidos há uma infinitude de harmonias e combinações sonoras que passeiam pelo prático ouvir do todo dia até êxtases estéticos. O ouvido se delicia, mas os olhos disto nada sabem.

Talvez seja um pouco de exagero dizer ‘nada sabem’, afinal são partes de um organismo, mas a ideia é imaginar que cada apelo se direciona a uma parte de nós. No entanto são apelos de diferentes partes que convivem no mesmo ser e trazem conteúdos do mundo especiais que se complementam.

A leitura do mundo todo está subordinada à combinação daquilo que nossos sentidos nos trouxeram. A partir disso agiremos, mudaremos nosso sentir ou nosso pensar.

Como há em todos os níveis do nosso ser estes apelos, somos repentinamente surpreendidos por essas ideias sem nem mesmo estarmos concentrados nela. Um parte de nós nos dá o resultado de se ter dormido em um sofá enquanto a outra se ocupa de saciar a fome. Ainda outra nos conta da tristeza de um amigo ter ido embora para outro país e aí desta mistura toda você tem uma ideia luminosa.

Ocupamo-nos de diversas coisas. Concentramo-nos em diversas coisas. Enquanto o foco está em uma as outras não deixam de acontecer. Acontecem na soltura da nossa consciência.

A consciência em si é ampla, mas nossa mente é limitada para a amplitude que a consciência tem. Parece que somente temos domínio sobre uma coisa por vez, embora o mundo todo tenha todo o tempo mensagens que nos dedicar. Mas tudo o que nos couber saber e lidar vai certamente estar na nossa consciência e se quisermos, podemos fazer emergir para a mente desperta.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.