Teu filho não pode carregar.

19 setembro 2016, Comentários 0

“Retrato de Pai e Filho” – Antony van Dyck Pintor retratista flamengo (1599-1641)

Não consigo deixar de me compadecer das grandes dores que todo o dia maltratam e pesam sobre os ombros dos meus conhecidos. Somos adultos, todos, eu sei. Mas tenho realmente uma tristeza porque vejo que sempre e sempre a dor é inevitável, macera o coração. Tortura.

A gente vai se reconhecendo cada vez mais velho porque doído. São perdas – de dinheiro, de parentes, de expectativas, de perspectivas. Testemunhamos um encurtamento no horizonte – parece que tudo se acaba. Tínhamos imaginado uma vida, e ela enveredou para outro lado – um ruim. O pior.

E tenho acompanhado, também, a vivência dos filhos de muitos dos meus conhecidos – os filhos trazem na expressão o testemunho de carregarem pesos absurdos nas costas. Eles vão ter que resolver os problemas dos pais que não os resolvem sozinhos. As raivas, as frustrações, as vinganças, os desequilíbrios. Tudo o que os pais não digerem bem e que lhes é pesado demais, ao invés de ser deixado longe dos filhos, tem sido cruelmente colocado na responsabilidade deles.

E os filhos parecem ir bem. Eles repetem com firmeza o discurso dos seus pais – que na verdade não fazem senão vomitar sua incapacidade de ser realmente adultos e levar a vida a frente.

Talvez a gente – os adultos que jogamos tudo isso nas costas dos nossos filhos – talvez a gente ache que está sendo ‘simplesmente honesto’, só que não considera que para eles a vida ainda não aconteceu com todos os seus ensinamentos – que eles não tiveram a certeza de que o mundo é e vai ser sempre bom, belo e verdadeiro – ou pelo menos, ter certeza de que nós vamos fazer de tudo para que o mundo seja o melhor para eles.

Despejamos sem culpa nossas fragilidades que, além de dar testemunho de uma humanidade impotente em nós, os pais, ainda esmagam a possibilidade de saúde nessa próxima geração.

Teus filhos não precisam carregar nada – vire-se você com o que lhe veio pela vida. Avante!

Respire de novo e, coragem! Aquilo que dói e machuca hoje se tornará fortaleza amanhã. Que a paciência de esperar por este tempo seja hoje a tua melhor lição para o teu filho.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.