Tem um fio entre nós

18 junho 2013, Comentários 1

Fios de Ouro Lygia PapeEstamos fazendo uma pequena reforma em casa. Puxa vida! Casa antiga, vocês devem saber: bate em um sarrafo e descobre que a viga está perdida de cupim, e uma emenda leva a outra. Tem que ter bom humor e otimismo. Nada disso me falta. A reforma está acabando.

Hoje me dediquei à periferia: caixões de madeira misturada. Havia reutilizáveis com lenha e com lixo. Uma montanha que consegui por abaixo. E descobri embaixo dos caixões algumas caixas de papelão. Claro, quando o caixão estava vazio serviu de depósito para a caixa que eu vim a descobrir hoje era de lixo de uma limpeza anterior que ficou bem ‘guardadinho’.

Era uma caixa baixa, menos de um palmo de altura, mas larga de uns 60 cm por 50 cm, talvez. Estava pesada e fechada. Bom, mas que lixo tem na caixa? Tinha telhas velhas – daquelas de amianto, sabe, de trocentos anos atrás que estava em um lado da casa que foi mexida: retalhos para o lixo orgânico ou para o reciclável? Impossível responder. Nem apodrece nem reutiliza. Afora o veneno que tem dentro delas. Tudo bem, pensei desconfortável, devem ter mais de 40 anos lavando sobre o solo – coisa boa isto não é, mas acho que não tem mais amianto dentro dos cacos: vai para o lixo orgânico.

Tinha folhas de árvores, também, de uma ventania que trouxe para dentro da garagem e misturou com poeira e serragem: lixo orgânico. E tinha ainda papelão de outras caixas desmanchadas. Tudo meio úmido. Tudo bem. Mas caixa não é muito fácil de usar para despejo de lixo. Tanto o despejo quanto a coleta fica difícil. Peguei sacos de lixo e fui colocar esta mistura dentro. Isto para descobrir que no meio da serragem tinha um monte de cacos de vidro.

Eram cacos de todo o tamanho. Desde uns bem maiores que a palma da minha mão até outros bem pequenos, e de diversos formatos. Quando vi aquilo pensei: cato os maiores e mando os outros para o lixo orgânico – vai tudo misturado!

Vesti minhas luvas – já passei da idade de cortar a minha mão. Na minha casa as pessoas pensam em mim quando pensam neste tipo de acidente, de tão frequente que isto foi na minha infância. E embora já faça uma era que não me corto, não deixo de ouvir recomendações para tomar cuidado. Enfim, vesti minhas luvas e fui catar os vidros. E isto levou uma eternidade. Pegava em maços, separava dos ‘grudes’  da volta e colocava-os em outra caixa.

Acabados os grandes pensei que seria conveniente catar os médios, também, e talvez algum pequeno que viesse junto. Daí veio para mim a imagem de pessoas caminhando sobre o lixo nos imensos lixões em que se fazem os depósitos. Me ocorreu que nem todos estariam protegidos por bons sapatos, por botas. Me ocorreu que as pessoas que são levadas a escolher lixo nestes depósitos são pessoas de baixa renda – gente muito pobre mesmo. Me lembrei das inúmeras imagens de crianças andando sobre o lixo muitas vezes misturado e me apertou o peito pensar que um daqueles caquinhos pudesse machucar um pé ou uma mão destas pessoas.

Foi como um susto de antemão, um sonho com o futuro do caco que estava diante de mim e que teve uma história desde a areia depositada sabe lá em que barranco, recolhida, lavada e derretida. Imaginei as grandes folhas de vidro deitadas sobre os suportes onde elas são adequadamente cortadas. Imaginei que alguém a teria escolhido daquele jeito que queria que parecesse a janela. Cheguei a ouvir a senhora pedindo ‘Pode ser de 3 milímetros, sim, mas quero que seja fosco.’ E foi colocado na janela, e usado talvez por cinquenta anos na minha casa.

O vidro, quieto, testemunhou as decisões e os movimentos da nossa vontade. Depois a janela partiu em nossa casa e alguém varreu os cacos. Havia outros vidros, também. Vidros mais grossos, vidros transparentes, outros verdes. Cada um com sua história. E eu fiquei imaginando os cacos viajando na caixinha para o lixão e caindo misturados a tudo mais e, finalmente, um menino saltitante – brincando como os meninos fazem sem ter o peso da miséria em que vivem – imaginei este menino calcando o calcanhar em um destes cacos que para mim eram só lixo e se machucando seriamente.

Imaginei o sangue do menino escorrendo sobre o lixo, e eu permiti que aquela ferida estivesse aberta! Lembrei que tudo estava na minha mente, mas que era tudo real, porque a gente participa de tudo, em cada ato nosso, em cada decisão. A gente é responsável por cada ser no mundo. Tem um fio invisível que nos liga. Do lixo ao gesto. Da palavra ao pensamento.

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Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.