Tchau, Forma!

4 fevereiro 2014, Comentários 0

sadee_philippe_lodewijk_the_farewellHouve um tempo em que a gente tinha que aprender como se relacionar com Deus. Tinha já um código para se saber, que determinava espaços – desde os físicos até os sociais, e os tempos. Gerações se ocuparam em guardar e repetir estes códigos, ensinavam aos seus filhos e o que de fato aprendemos com isto foi forma. Aprendemos a vestir uma armadura, a estruturar-se no mundo.

Não vamos nos enganar. Forma é muito importante. Estrutura é tudo! Imagine seu corpo sem esqueleto. Compreendeu?

Mas a forma amarra a gente e de repente a gente se fixa de uma tal maneira na forma que esquece que tem alguma coisa que justificava a aplicação desta forma. As pessoas têm vivências que transcendem a mesmice da experiência humana e quando os outros examinam esta transcendência, se enxerga por fora e se detecta somente como houve um certo auxílio da forma: ‘ele repetia este mantra mil vezes e era desse jeito, sentado assim.’ ‘Esta posição ajudava tal percepção’ e assim a gente vai registrando e repetindo e determinando o que se deve fazer para conseguir transcender.

Mas veja: todos os dias a gente tem que cuidar de ter pão na mesa e de outro lado que a família esteja lá – para dar continuidade. A quê? Ao sobrenome! À linhagem, etc, etc. Parece bobagem? Não é. O impulso da família tem a ver com transcendência, também, só que em um âmbito ‘horizontal’. Querer ter filhos e ver seu sangue continuar é um modo de vencer a morte, que vai por fim à brincadeira, sem exceção de ninguém. Ter filhos é garantir estar na próxima geração. ‘Eu posso morrer, mas meus filhos e netos vão carregar o meu sangue’ e tal e coisa. Percebe aí a necessidade de ir além?

No entanto os códigos de se relacionar com Deus tratam da transcendência justamente dessa horizontalidade que termina por obscurecer nossa vista. É como se tivéssemos um anelo pelo que não está colado à terra em que a gente pisa. A gente tem uma coceira para descobrir o que mora em nós que não se relaciona com a carne extinguível e provisória.

Portanto é justo que a gente marque num caderninho, no meio da balbúrdia da vida, as dicas para chegar lá. No entanto não é todo mundo que se interessa por isso, já reparou? Tem quem fique absorvido na realização plena daquilo que é horizontal na vida: fazer uma família e manter a família. A gente enfim casa, tem filhos, trabalha, ganha dinheiro e faz melhor para ser sempre mais confortável e mais estável. Até que um dia a gente se depara com o deprimente horizonte da finitude.

Agora veja: Hoje em dia as pessoas não estão mais tão interessadas naquelas anotações, nos códigos. Você poderia discordar, mas veja que o modo de as pessoas das igrejas se portarem socialmente já não tem mais tanta forma. Ouça as músicas, veja as relações com os mais velhos, veja o modo com que se fala e se veste. A forma se contorce em licenças e desculpas. A forma é atingida pelo poderoso sistema que apela para o animalesco em nós, algo impensável para tempos de antanho.

Mas todo mundo, qualquer pessoa que você conhece, vai ter em certo momento da vida a instigante perturbação do fim, que é ao mesmo tempo a necessidade de movimentar-se verticalmente dentro de si mesmo, o que inclui a curiosidade por Deus.

Hoje estamos abandonados pela forma, embora a forma sirva. Só que somos arrogantes para seguir os passos dos outros. Somos arrogantes, sim, e isto é porque somos ao mesmo tempo muito capazes, somos muito sensíveis, muito poderosos. Hoje em dia vamos cortando as sugestões de caminho que vêm de fora e bancamos ir atrás da transcendência por nós mesmo, sem forma preestabelecida.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.