Talentos e compromisso

14 abril 2013, Comentários 0

a-sesta-van-goghSomos todos cuidadosos com algum aspecto da nossa vida. Há provedores admiráveis que conseguem construir fortunas imensas e manter além de seus próprios filhos ainda duas, três ou quatro gerações que se seguem a eles. São pessoas de uma força de vontade descomunal e admiráveis por sua determinação. Como tudo, são pessoas que precisam estar muito atentas a questões morais. O que pode resultar do acúmulo desenfreado de dinheiro, de propriedades, diante de toda a vastidão de miséria do mundo? E ainda seria importante pensar que o presente da herança pode ser na verdade um tiro no pé. Quantos destes privilegiados se tornarão pessoas moles em sua vontade, dependentes e incapazes de ação? Há famílias famosas por dilapidar fortunas que herdaram de avós ou pais.

Há por outro lado, homens de tal desprendimento que conseguem abrir mão de todas as coisas que consideramos essenciais na nossa vida. São, pois, cuidadosos com aspectos espirituais. Ouvi hoje assim: tem gente que se preocupa em fazer a diferença no mundo enquanto aqueles (talvez aqueles que eu mencionei acima, embora eu ache que a generalização seja um pouco perigosa) se preocupam em acumular para si mesmos dinheiro somente.

Eu penso que estamos em uma época de equilíbrio. Não podemos mais almejar ser os ascetas que se libertavam de todas as amarras familiares e sociais e iam para o mato, para a caverna, para a estrada simplesmente desenvolver-se espiritualmente. Também não estamos mais no tempo de juntar dinheiro e ignorar a carência do mundo.

Hoje existe claramente a notícia de que o mundo é limitado, é uma nave, que daqui não se pode exaurir os recursos, senão eles acabam, que não se pode produzir lixo em uma velocidade tal que não haja tempo para a decomposição, que não se pode exigir que a terra prodigalize recursos sem limite. Hoje temos claro que tudo tem limite, que temos que ser ponderados, que temos que agir com moralidade também com o mundo.

Nem morrer de fome, nem acumular demais. Voltamos a ideia do caminho do meio – e esta ideia é tão antiga!

E do meio mesmo, não adianta seguir os caminhos antigos de desprendimento absoluto. Não funciona! Hoje os que tendem a este desapego são como o monge  que vai passar um tempo na casa do irmão vendedor de sapatos. Há anos não vê mulheres ou conversa com elas e é mesmo tido como santo. Ele mesmo se acha um santo! Mas quando vai ajudar a família a vender sapatos fica todo desconcertado por tocar o tornozelo de uma moça e por ouvir sua voz. Não dá para cultivar a virtude alheada do mundo. Não serve. Simplesmente!

De um lado é meio apavorante enfrentar este estágio do mundo: o mundo pequeno e finito e nós – gente responsável por ponderar a circulação das riquezas. Mas é também uma bênção. Pense quantas foram as gerações de pessoas que não tiveram assim tão claro que não era o próprio talento o que devia ser seguido, mas que tudo o que se fizesse na terra devia ter a presença de um espírito moderador e desperto, e que tudo o que se fizesse pelo desenvolvimento espiritual, por outro lado, deveria ser ancorado na terra para que os outros seres humanos que vivem nela tivessem também frutos das virtudes que fossem desenvolvidas.

Muito importante se conseguíssemos caminhar com uma mão no céu e outra na terra: de um lado ouvíssemos as demandas dos nossos compromissos com nossas famílias, comunidades, com a terra, e do outro jamais nos esquecêssemos de que cada um destes compromissos deve estar permeado com o grande compromisso de fazer com que cada relação, cada pessoa, cada oportunidade seja um degrau para uma virtude maior.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.