Sussurros da Verdade

16 novembro 2014, Comentários 0

Máscara mortuária etruscaPor que será que a gente está todo o tempo atrás de alguém que nos conte a verdade? Todo mundo vai em algum momento encarar a verdade, há sussurros dela por toda parte. Ela está espalhada, evidente, asperamente exposta para quem queira vê-la. Muito asperamente até.

No entanto, no fundo, eu penso, nós já chegamos à conclusão de que, por um lado, tendemos a não enxergar a verdade, e por outro, a desviar dela quando a encaramos.

E embora não consigamos admitir isso publicamente, nós vivemos atrás da verdade. Buscamos as razões para as coisas – quando aquilo mesmo que nós fazemos muitas vezes carece dela! Procuramos coerência – nos outros, especialmente – porque afinal a coerência é um dos sinais que usamos para descobrir a direção das ações ou dos pensamentos de uma pessoa. E se ela não é coerente é difícil descobrir. Mas nós mesmos somos incoerentes, e não nos demoramos muito ponderando sobre isso.

De fato vamos pelo mundo às apalpadelas descobrindo coincidências, evidências, mistérios. E de vez em quando estamos à beira de descobrir tudo e rapidamente nos evadimos do que quer que seja que nos venha revelar a verdade de uma vez. Que susto! Que medo isso nos traz!

Somos frágeis e oscilamos entre querer saber a verdade – e que seja de uma vez – e o medo de conhecê-la de uma vez e de que ela seja muito ruim de ter que carregar.

E por sermos frágeis, nos abrigamos nos disfarces, na diversão, na azáfama do todo dia – assim gastamos muito tempo dos dias que estamos aqui para descobrir a verdade.

Não são muitos os dias. São poucos de fato. Levamos quase um terço da vida virando gente, outro pedaço tinha que nos servir para olhar para as coisas com seriedade, mas não temos rijeza suficiente. Somos moles.

E não é para a gente se exasperar com a gente mesmo.

Talvez bastasse reconhecer que passamos anos – talvez mais tempo do que podemos imaginar, simplesmente evitando conhecer a verdade. Inventando subterfúgios, ocupações, ocupando mesmo nossos pensamentos com correntes de ideias lindas e vazias. Ocupando nossas mãos com inutilidades e deixando nosso coração bater em vão.

Em um certo momento, se conseguirmos encarar e sustentar uma verdadezinha assim mísera, talvez possamos dar passos mais largos e perceber verdades maiores e mais importantes.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.