Sonhar e a Realidade

5 junho 2013, Comentários 0

Zhuangzi-Butterfly-DreamAdorei o Conto Chinês ‘O Cervo Escondido’. Durante muito tempo na minha infância, e julgo até que até boa parte da minha juventude, carreguei esta ideia de que as pessoas poderiam estar sonhando a vida ao invés de estar vivendo a vida de verdade. E muitas vezes parava pensativa calculando se aquele momento da minha vida era real ou sonhado.

Depois descobri que esta ideia não era assim tão original. Conheci o tal ‘argumento do sonho‘: uma noite, Zhuangzi sonhou que era uma borboleta a voar alegremente. Depois de acordar, ele se perguntava se era Zhuangzi que sonhara ser uma borboleta, ou se era uma borboleta que teria sonhado ser Zhuangzi. (É boa demais, essa!) Ou seja, a ideia é velha sm, só que muito interessante, também.

Mais tarde na vida precisei parar e me concentrar para me convencer que aquilo que eu sonhava podia ser distinguido do que eu vivia simplesmente porque tinha uma edição bastante mais requintada – com efeitos especiais até. Comecei a ver que nos meus sonhos quebravam-se leis da física, eu providenciava saídas para problemas e normalmente não conseguia retornar ao sonho com a mesma coerência que a minha vida tão insistentemente e persistentemente fazia. Daí eu me convenci.

Tempos depois vim a tratar do sonho novamente. Estudando um pouco de Antroposofia me ocupei dos estágios de consciência que a gente mostra em um dia, em épocas da vida ou mesmo durante o próprio crescimento. Qualquer um é capaz de reconhecer que quando dorme pode estar dormindo bem profundamente que não tenha nem sonhos; que pode dormir e sonhar – e isto parece estar mais perto da nossa vigília, porque se o sonho não é bom, ele nos desperta; e que se pode estar acordado. Se a gente presta bem atenção, mesmo quando se está acordado a gente varia de um estado de absoluta vigília para uma vigília vamos dizer assim – ‘dormente’. Lembre-se de como você assistiu a uma palestra chata, para exemplificar.

São estas três diferentes condições no homem, que se alternam em um dia e que vão se modificando na vida, também. Bebês parecem estar dormindo, crianças um pouco maiores parecem estar sonhando e a gente parece estar desperto. Parece, sim, porque temos que lembrar que não são estágios absolutos. A gente quase desperta nos sonhos como quase sonha acordado. Mais difícil é permanecer em estado de sono profundo sem sonhos ou de vigília absoluta, também. São extremos de presença de que talvez precisássemos muito mais do que um pequeno texto como este para discutir.

O caso é que o tempo passou e eu já passei da idade de acreditar nas coisas das quais me convenci quando era moça. Tenho prestado atenção na vida – esta vida das leis da física, a real, aquela na qual a gente se encontra todos os dias. Existe alguma coisa além da realidade que se manifesta no nosso cotidiano. Realmente uma boa parte da vida vai da autoria de cada um. De como se interpreta o que se recebe do mundo. Tão assim que uma pessoa pode reagir a olhares, palavras, expressões das maneiras mais surpreendentes.

Isto se origina no mesmíssimo lugar em que se originam os sonhos: num vão aberto no nosso emocional. O que é de fato sonho pode ser uma interpretação em imagem de uma sensação física ou de uma memória do dia, etc. Uma sensação ou um sentimento. Algo que fale para o nosso sentir – venha de cima, da cabeça, ou de baixo, do corpo.

Mas quando a gente está acordado e não está bem desperto, também nos assolam sonhos de que somos maltratados quando poderíamos apenas estar assistindo a um rosto franzido ou uma pessoa sendo rude. Devíamos saber bem claramente que não é na realidade com a gente. É um ‘ataque de borboleta’ que aparece no meio do dia.

Sonhar é muito bom. Necessário, em boa medida. Mas é importante por freios nos sonhos para ter mais contatos com realidade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.