Ser Sol

18 dezembro 2014, Comentários 0

KenomaO mundo gira pela nossa capacidade de doação. São mesmo as horas sem preço que investimos no mundo que fazem com que existam presentes e que as pessoas tenham vontade de sair de suas casas de manhã para trabalhar.

Não são as horas pagas, não. Estas cuidam da sua vida particular. De trazer comida para a sua casa e roupas para os seus filhos. Por elas você vai ser enterrado naquela mesma cova que todo mundo vai e vai ter que viver a mesma experiência que viveu desde sempre.

Mas as horas a mais, aquelas nas quais você se dedicou a alguma coisa que estava além das capacidades financeiras das pessoas que estão a seu lado e para o que todo mundo diz: “que pena! Era uma ideia tão boa!” Nestas horas que a gente costuma parar e lamentar que não tenha um bom financiador, um cara generoso que, nem conhecendo bem a empreita, bote a mão no bolso e financie o que a gente imagina que seja bom. Nestas horas que se a gente continua, simplesmente na fé de que a vida vai arranjar um jeito. Bom, nestas horas é que nasce algo novo, ali é plantado algo do futuro.

Sim, porque quando a gente é pago, é isso mesmo: estamos ‘quites’. Nada de a mais foi feito. Gastou-se tempo, cérebro e suor e no fim das contas está ali o seu quinhão, em notas para resolver o problema das suas contas.

A partir daí, quando damos um passo para a conquista de um ‘a mais’, daí, sim, é que fazemos a roda girar, caminhos novos se abrirem.

Isto é a doação. Tirar do nada. Criar e lançar para o universo. E viver o risco de não tampar com nenhum dinheiro.

Meia hora no dia. Uma hora por semana, um fim de semana no mês. Um tanto de trabalho que a gente faça gera no m undo o que gera o Sol. O que retorna para o Sol? Talvez a alegria de ver movimento, vida e criação a partir da própria doação. A gente quase nem se lembra dele!

E ser Sol é de uma alegria imensa. Ganha a gente porque nos encaminha por vias cheias de propósito. Não aquele de chegar no banco no final do mês, mas outros, novos, inusitados de quem abre um caminho, ou unta as engrenagens para que as coisas fluam.

E parece uma dificuldade fazer este movimento. Parece que a gente não tem este tempo, ou que vai acabar faltando algo para nós, no final – comida, roupa, sei lá. Mas não falta! O que a gente tem a gente passa para frente e para nós se encaminham coisas que nunca tínhamos pensado ou mesmo planejado ter.

Vão-se abrindo portas – para você e para quem está a sua volta: gente que acha seu caminho na vida, gente que resolve somar, gente que aproveita o que foi doado para crescer e de quem você jamais vá ouvir falar, talvez. Mas todo mundo está vivendo a partir de alguma coisa que existe porque alguém conseguiu fazer acontecer – do nada!

Do nada é um pouco ingênuo dizer, porque só consegue doar mesmo, quem tem. Quem tiver sobrando lá dentro. Porque cultivou por muito tempo, as vezes, as vezes porque recebeu muito, também.

No fim vai exigir coragem, exigir que se mire um ideal, vai exigir um desprendimento imenso, mas não existe isso do ‘moto contínuo’. As coisas só vão se mover se uma mão que nunca teve um impulso anterior – um acordo de salário, por exemplo, ou uma finalidade prática – se esta mão der o primeiro impulso.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.