Ser parte do sistema

6 agosto 2013, Comentários 0

cerca voadora

Somos parte de uma geração que traz na bagagem as lutas sociais, as lutas de classe, a derrubada do pensamento excludente, os nazismos de várias cores. No entanto hoje em dia somos somente capazes de enxergar diferenças, e que não devemos falar sobre elas. E elas nos importam demais, mas não podemos discriminar. Ficamos então sufocados porque aquilo que pensamos fica atarraxado garganta abaixo. No fim, depois de tanto discurso, para dentro de nós fica que gênero importa, sexualidade importa, etnia importa, classe importa, mas não podemos expressá-lo. De que serve um século de discussão?

Hoje se pode processar uma pessoa por mostrar seu desdém por um grupo étnico sem lembrar que a valorização tem o mesmo peso. É certo e bom eu dizer que aprecio gente de pele amarela? Isto não seria discriminador? É errado eu dizer que desprezo enquanto é certo dizer que aprecio? Não é incoerente?

E dizer que ‘mulheres ficam bem de salto’ e ‘homens são bons trabalhadores braçais’. São só elogios, mas o que querem dizer? E se dizemos o contrário? Bom, temos um século de argumentações dando razão para todos os tipos de pensamento. Desde que gays não podem ser parte do exército ou da igreja até a conquista do casamento gay. Mas parece que todos estão armados para a conquistar direitos para uma meia dúzia.

Teríamos que pensar mais. O que significa o casamento? Na igreja o casamento é mais um controle sobre a vida dos fiéis. É relativamente recente no rol dos sacramentos. Um controle que rendeu muito dinheiro e regulou as uniões. Passou a ser valorizado como cerimônia de união de famílias, de bens, de estados, etc. Na prática repercute na sociedade como a formação de um núcleo familiar em que todos têm responsabilidades sobre todos. Assim, se um sujeito morre, sua herança passa aos seus parentes – aos membros da família dele, que, aliás, ele mesmo escolheu. Seria exagero pensar assim? E por que é que somos gays querendo o direito justo ao casamento? Para garantir o direito à propriedade, ao reconhecimento, para serem parte sistema?

E a propriedade? – outra ideia intocável na nossa sociedade, mas se eu sou dono de uma casa, de dinheiro, de um carro e se eu morrer, o que é meu tem que continuar com os meus e ponto! Não é direito? É direito! Bom, vai aí um tanto de tradição, um tanto de safadeza. Quando é que as coisas passaram a fazer parte das posses do homem? Quando foi que um sujeito colocou uma cerca e falou: “daqui não passe!” Pois é, neste dia também começa a violência, porque, uma vez que alguém passe a cerca, há que se impor a regra de alguma maneira. E está tudo bem?

Uma coisa vai justificando a outra. Somos capazes de aceitar que exista exército e polícia armada porque “só conseguimos conter a violência com violência”. E pleiteamos que mulheres e gays façam parte disso como conquista. Conquistamos igualdade de direitos assim. Não era de se esperar que as pessoas estivessem querendo desmontar o sistema opressor ao invés de fazer parte dele? Quer dizer que o caldo da libertação da mulher e do reconhecimento dos gays e da igualdade social vai ser a inclusão no mundo torto?

Chego a conclusão que inventamos regras para dizer que os outros as estão quebrando! Apontamos a ação do outro como imoral porque queremos justificar nossas próprias imoralidades. Eu seria capaz de alinhar um livro de leis cuja base única está em proteger o poder e o dinheiro. As vezes e por contornos tortos aparece uma lei protegendo direitos humanos, mas nasce daquela primeira violência que a gente mesmo inventou. É só uma negociação, uma suavização.

Seria preciso dar o próximo passo próprio da nossa época e verificar que somos mentirosos quando cantamos moralidade. Juntamos cancros de propriedades paradas que foram griladas por alguém no passado e que hoje seguem como presentes a todos nós. Tanto os que as têm por herança direta quanto os que as têm porque conseguiram ganhar dinheiro dentro do nosso sistema excludente e seletivo que aperta a massa para dar sustento a uns poucos. Mas a propriedade é um entre muitos itens que se poderiam alinhar.

Educação, casa ou emprego – esses são privilégios dos que vencem; os que não venceram estão a espera de que olhemos para o lado e os reconheçamos como herdeiros tão legítimos quanto nós daquilo de que usufruímos. Pessimista como possa parecer, minha certeza é que agora somos chamados a agir com liberdade e moralidade em cada ato nosso e não podemos mais nos proteger no que as pessoas disseram, nas tradições, porque se olhamos com cuidado tudo perde a autoridade. A única autoridade que sobra é a sua e sobre você.

Precisamos ver que depois de um século justificando imoralidades em grupo precisamos olhar para nossos limites pessoais. A partir daí é que vão ser garantidos direitos verdadeiros.

 

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.