S'Arte fora da Gaiola!

24 setembro 2013, Comentários 0

desenho Manoel de BarrosA gente se conhece um. A gente fala com uma voz, a gente caminha com um corpo, age com ele e nele nos reconhecemos. Os pensamentos que percebemos em nós fazem parte de nós. Os sentimentos que nos movem são revelações de nós mesmos e as pessoas ao nosso redor um pouco nos ajudam a manter nossos limites. Até que ficamos chateados de ser tão estreitos, tão óbvios, tão previsíveis. Chegamos a ser capazes de dizer sobre nós mesmos que somos chatos ou alegres, que somos animados ou moles. Que somos ativos ou violentos ou apáticos. Muitas vezes nem queríamos ser muito assim, mas somos, repetida e insistentemente somos nós mesmos e levamos isto até as últimas consequências. Até a morte.

No meio do caminho tem gente que se cansa tanto de se carregar naquele mesmo formato, de fazer repetidas vezes o que não queria fazer e se arrepender, e fazer novamente! que procura desesperadamente por um caminho que leve para fora desta gaiola – boa imagem: Cerca que confina, mas que deixa olhar o mundo lá fora.

Recentemente me admirei de ver que tem muita gente que resolve virar outra pessoa, que se abandona no meio do caminho, que se esforça de tal maneira que muda hábitos, muda o próprio nome, o penteado do cabelo, e passa a ser uma outra pessoa. Que lástima! A pessoa se esforça tanto para sair de uma gaiola e se mete em outra. Deve haver um espaço fora, mas parece que enquanto a gente frequenta este mundo físico assim com estas tarefas que temos e com estes laços que fazemos a gente tem sempre que tem esta identidade.

Eu me conformei com isso. Já faz tempo, até. Embora eu lastime muito as pessoas que comemoram pular de uma prisão para outra, eu considero que o exercício de viver outra identidade é fantástico e fundamental.

Para isto eu penso que não há muitas alternativas, ou talvez haja muitas, mas todas se refiram a uma única experiência humana: a Arte. Isso eu digo porque não há na arte nenhuma utilidade prática, não há nada de vantajoso. O poeta Manoel de Barros fala do seu fazer de uma maneira muito interessante e reveladora. Ele mesmo, homem que sofre o envelhecimento se enerva com a sua cina. Que triste a pessoa ir virando ruína de si mesmo, virando escombro. E nele mesmo não há saída para esta desgraça. Então ele se debruça sobre a poesia e nela sai uma solução. Ele diz do homem:

“A gente só anda de ida./A gente nasce cresce amadurece envelhece e morre./ Pra não morrer tem que amarrar o tempo no poste./Eis a ciência da poesia:/amarrar o tempo no poste.”

Ele não consegue fugir do destino, mas enquanto poeta ele transcende a morte e teima em permanecer eterno. É nesta hora que a gente pode ficar fora da gaiola. Neste momento a gente salta da própria gaiola sem se esquecer dela, plenamente consciente, mas fora das possibilidades sufocantes da matéria: o tempo não nos alcança na poesia.

Poesia como fala o Manoel de Barros é a arte toda, tenho certeza, porque um poema é um mundo sem tempo no qual você passeia pela graça de alguém que o compôs. A coisa da arte é tão grande e forte, que nem é preciso que você seja autor da arte para poder desfrutar desta propriedade! É possível desfrutar na assistência de uma peça, sem que você seja participante da apresentação ou autor. Você apreciar um quadro, uma música, uma performance, a arquitetura. Tudo enfim que rouba a gente de si mesmo e não propõe outro lugar, mas liberta.

Mas se você um dia se atrever a pegar em um lápis, ou dançar, ou cantar. Se você algum dia deixar de acreditar naquela famosa frase mentirosa: ‘eu não sei desenhar’ ou ‘eu não tenho jeito para isso’. Bom, neste dia você estará fisgado para sempre para um mundo sem volta. Neste dia você descobre que a gaiola tem o lado de fora.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.