Re-escolarização no agora

23 outubro 2013, Comentários 0

perspectivaEntre tantas reflexões contra a escolarização eu preciso pontuar uma ou duas virtudes da escola. Quem na liberdade de casa gastaria um minuto mais na tolerância de uma matemática difícil de dominar ou de uma química que não se entende? Quem passaria horas tentando fazer no papel uma perspectiva de sei lá qual jeito, insistentemente, até a perfeição? Honestamente, acho que ninguém. No entanto há na matemática e na química, na geometria e em todas as outras matérias, segredos que libertam o homem de si mesmo. Libertam o homem dos próprios instintos e do pesado corpo que carrega. Nas matérias escolares está a porta para o Espírito.

Está bem, pode ser que a porta também esteja aberta em outros lugares. Alguém poderia falar das relações humanas, e com razão. Outro poderia apontar a religião. Mas precisamos avaliar com clareza que a proximidade com realidades diferentes das que nos são propostas pelo nosso ambiente natural só são encontradas mesmo através da escola.

Há porém um desgosto com a escola de hoje em dia. Mesmo porque a escola que nós nos estamos propondo, ou que propomos para as nossas crianças é uma escola de memorização idiotizante e de politização sem ética. A gente esquece que não sabe quem são as crianças que estão chegando na escola. Não sabe qual é o potencial da pessoa que está diante de nós. E daí? Condenamos as pessoas à centenas de horas – onze, doze, treze anos de escolarização, entre 5 e 10 horas por dia repetindo e repetindo tudo o que achamos que valeu a pena na nossa história para que todos saiam ‘preparados’.

Mas preparados para quê? Para o teste de entrada na faculdade? Para ter uma boa profissão? Para ganhar dinheiro? Para entrar no mercado numa posição superior? No frigir dos ovos tanto os ricos quanto os pobres, indistintamente de sua profissão chegam a um certo ponto da vida em que o que importa é ser feliz, é achar um sentido para sua vida, é estar bem como um ser humano.

No fim optamos pelo pior jeito de se fazer escola. E as razões para isto? Hoje as razões são sustentar um sistema ruim que maltrata todo mundo. É justo, portanto, não querer mais esta escola desse jeito. No fim o que fazemos nesta escola é coletar conceitos prontos – brilhantes, talvez, dos nossos antepassados e dar para nossos filhos engolir, como se tais conceitos fossem o ponto final.

Estes conceitos de alguma forma geraram este mundo, mas este não é mais o mundo que queremos. Ninguém quer guerra nem matança ou crueldade. Ninguém quer sofrimento ou poluição ou exploração. Todos querem que o mundo seja preservado, que a riqueza seja distribuida com igualdade, que todos tenham boas oportunidades, enfim. No entanto ninguém lembra de dar a chance às novas gerações de rever o mundo, as relações, de fazer novas propostas. E isto poderia acontecer durante a infância e na juventude. Durante o período escola, o período de ‘formação’.

Há mérito em pensar que as pessoas podem se realizar longe da escola. Na verdade sempre foi assim já que a escola não nasceu com o mundo. Essa ideia é bem recente, aliás. Só que expirou, já não serve para os dias de hoje. Não serve porque não responde mais à consciência da nossa época: consciência ecológica, consciência social, consciência espiritual, etc. A gente devia ter um pouco mais de fé nas pessoas que chegam ao mundo e fazer mais perguntas, e só contar o que nossos antepassados conquistaram muito depois. A gente devia deixar em aberto para que as pessoas se dedicassem longamente aos grandes problemas do mundo. As questões são as mesmas: são ética, colaboração, compaixão… O modo de pôr isto em prática não foi um sucesso até agora, mas quem pode dizer que não se pode ter uma ideia nova?

Minha proposta é que a gente persevere com a prática da escola. Há que se mudar os meios. Basta de contar o passado para as crianças. É preciso saber viver agora. É preciso um testemunho de ser humano digno para se pautar. E isto se pode ter dentro de casa. Mas só a escola nos coloca neste momento de absoluta humanidade na qual não estamos presos nos nossos hábitos ou necessidades e podemos olhar o mundo com um frescor diferente. Só na escola nos virão as histórias do outro lado do mundo de hábitos e descobertas inusitadas para que fiquemos muitos dias a ponderar as razões de tal assunto.

É preciso investir no homem que virá e não no homem que já esteve aqui. É isto o que se pode fazer em escolas.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.