Quantas vezes me matei

17 março 2013, Comentários 1

CoffinNão sei quantas vezes me matei, a ferida a cada vez que me culpo que vi que entrei pela porta errada me mostra que o buraco no peito já está aberto e não é nem dor que sinto é o vazio, o vácuo. Porque será que me matei tantas vezes? O que tantas vezes foi tão importante a ponto de eu chegar a conclusão: – já deu o que tinha que dar.

Como é que pode se saber que a culpa e o apedrejamento não vale em de nada, nem as celas, nem os monastérios nos protegem da própria dor, das próprias feridas, nada nos mostra uma porta. Não existe fé que nos faça enxergar um novo mundo, se dentro de nós o vácuo come. Mas ainda que a gente seja uma minhoca temos nosso valor.

O vácuo que não dá limites nem atrito para sair, para dar impulso. Eu vejo inclusive que o vácuo é negro não nos faz enxergar um brilho, uma cor, alguma perspectiva. Todos os dias é sempre tudo igual e quando perdemos o foco do que estamos fazendo o mundo acaba, é exatamente quando não achamos o ponto de fuga para desenhar, não sai direito, as coisas ficam tortas, desagradavelmente amorfas. Não se encaixam.

Porque acabei com tantas vidas? Não me sinto uma assassina pois foi mais como suicídio o que não tira em nenhum momento a responsabilidade de acabar com a vida e com tudo o que está em volta dela, é como matar as minhocas, a terra deixa de respirar. Poluir a água do vilarejo, intoxicar todo mundo. O matar não é o que acaba, é o que é extinto por consequência.

Quero então aproveitar todas essas mortes para fazer um único funeral, ter um foco enfim, quero muitas flores, muitas cores, quero música, nada de cd, quero músicos tocando, tanta festa que esqueça que estou lá morta, deitada sem fazer nada, ou talvez de tanta farra, tanta bebida boa e gramado verde eu só queira sair andando, caminhando, dançando e cantarolando com a música, devorando os chocolates de páscoa que aparecerem na minha frente e guardando essa energia toda e cheia de endorfina para VIVER novamente no inverno.

Já desisti do funeral, o melhor dele dá para se ter sem caixão, nem choros, as flores, a música, não sendo um funeral pode ter até uma bela refeição para comemorar que estou viva ainda!

 

 

 

Regiana Miranda

Professora de artes e trabalhos manuais e co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner de educação para a autonomia de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Regiana acredita no amor como fonte transformadora da vida e inspira pessoas a se tornarem mais conscientes do seu próprio amor para viverem mais felizes e de forma mais autêntica.

  • Ana Maria Miranda

    O melhor de estar” morta” é poder sentir-se renovada para a próxima vida. Cada noite dormida é uma morte. Cada despertar um renascer para novas perspectivas.