Quando se fecha

26 maio 2013, Comentários 4

Buddha in his Youth, 1904 Odilon RedonA gente pensa que quando tem uma ideia ela vai simplesmente aparecer pronta, ser aprovada por todos e, enfim, tudo vai dar certo. Com gente é assim, você olha um gurizinho de 10 anos batendo bola na rua e não pensa para trás. O menino é o que ele se mostra na hora em que você o vê. Se ele atravessar a rua bem na hora que você passa com o carro você grita pela janela para chamar sua atenção e não suspeita que aquele menino nunca existiu antes nem vai existir mais tarde. Você pegou uma nota da grande sinfonia que vai ser a vida dele.

Eu me surpreendo sempre de as pessoas se reconhecerem no espelho e quando eu soube que tem gente que não se reconhece depois de velho, ou por causa de uma doença eu pensei: estes é que estão concentrados e pegando a coisa de verdade. A imagem da gente muda rápido demais. Do dia para a noite ficamos menos redondos do que no dia anterior. Depois a gente se acostuma a ficar com olheiras por conta de noites mal dormidas ou de cansaços por outros motivos até que um dia elas estão incorporadas a sua imagem, e finalmente, suas pálpebras não deixam nunca mais de cair sobre os olhos, meio murchas.

Não, eu não estou reclamando de nada, meu ponto era mostrar como a gente muda todos os dias e acaba incorporando diariamente mudanças no rosto de modo a poder se reconhecer no dia seguinte, O vizinho a gente se assusta de ver sair um dia com a namorada e de aparecer um tempo depois com três filhos e uma esposa. Ele está completamente diferente e só a custo você o reconhece. O mesmo menino, mas tudo está diferente.

Se fôssemos conversar com ele reconheceríamos mesmo que tudo dentro dele também está diferente. Chega a não falar das mesmas coisas e seu vocabulário é novo. A vida humana é assim!

Agora, quando a gente entra numa igreja a gente não pensa nisso, mesmo. Não pensa que o fato de haver ali uma igreja significa a materialização de um ideal muito antigo, muito trabalhado por muitas pessoas ao longo de suas vidas. O fato de ter uma igreja implica em uma longa genealogia na qual vai se achar o primeiro representante muito antes. E se nos ocupássemos das redes que engendram o nascimento do sujeito e de todos os outros componentes dessa genealogia ideológica e mais ainda a do lugar onde está a igreja e ainda dos sujeitos que a construíram e das pessoas que estão envolvidas com ela, ah, isto é um nunca acabar.

Mais simplesmente, quando entramos em um banco nem por nenhum motivo desconfiamos do parentesco desta casa com uma ideia medieval. Falar da origem do vidro e dos tijolos? Nunca! E claro, tantas outras coisas que atravessam o nascimento de um banco, de uma loja, de um carro, da mercearia e da sua casa.

E hoje você tem uma ideia. Está com ela cozinhando a um ano? Está frustrado porque te parece que cada movimento seu é um patinar eterno que não tem resultados.

Pois é bom lembrar daquela velha: você levou nove meses para nascer! E já era um investimento longo anterior de muitas pessoas e muitas vidas que se atravessaram para dar a chance do seu nascimento. Não se acovarde pela demora. Tudo tem um ciclo. Olhe bem para a maçã que está brotando minúscula na macieira. Você ainda há de colhê-la e poderá aproveitar o delicioso e doce suco que um dia você sabe que ela vai ter. Mas calma. Espere fechar o ciclo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Josef David Yaari

    Oi Deriana: gostei deste texto… E eu que trabalho com a biografia humana percebo isso diariamente em minha atividade. tudo tem uma história bem mais longa do que estamos acostumados a perceber…

    • Deriana Miranda

      Josef, obrigada por confirmar esta minha impressão das coisas. Eu vejo assim e acho que isto é o que justifica a confiança no futuro.

  • insistimento

    A visão de demora é reflexo da nossa própria ansiedade. Nada na vida demora. Mesmo. Nós é que geralmente estamos tão desencaixados daquilo que está acontecendo naquele momento que queremos trazer o futuro pra perto ao invés de andar até ele. Boa reflexão.

    • Deriana Miranda

      Marcos, isto me faz lembrar que a gente pode ter em um átimo a visão do todo. E isto é o treino de uma vida. Mas se a gente lida com o tempo da vida, tem que acreditar que as coisas vão acontecer com certeza.