Quando o ideal desce à Terra

26 setembro 2013, Comentários 0

Homem pescando em douradoSou uma idealista. Venho de uma família de idealistas, aliás e quase todos os que me rodeiam também o são. Nos cercamos de pessoas que tem dentro de si a mesma chama ardendo. Somos parte de grupos que seguem filosofias e ideais altos. Queremos ser melhores e, no fundo, arrogantemente desprezamos aqueles que não são como nós. Ou temos pena deles. Eles ainda não perceberam que existe mais do que o rame-rame diário na busca por uma viagem à Paris, em busca da bolsa de R$ 20.000,00, de dar um celular com vinte e cinco mil funções para cada membro da família, colocar botóx na cara, levantar o que cai, fazer uma lipo, malhar e tomar bomba para não parecer que a adolescência foi embora.

A realidade é esta: uns se amarram na adolescência pelos hormônios, pela aparência, pela vitalidade enquanto os idealistas se amarram nela pelos impulsos espirituais que nascem neste momento.

Precisamos crescer, no fim das contas. Já basta tanto dos liftings de pálpebra quanto dos sonhos. A adolescência é um encanto: é o encanto hedonista em todos os âmbitos, mas é hora de amadurecer. Fiquei chocada de ouvir que para os psicólogos a adolescência vai agora até os 25 anos. É o fim! A vida é a mesmíssima, mas a gente colocou sapatinhos fofos nos pés das nossas crianças e não fazemos mais uma pele grossa. Estamos acolchoados dos pés a cabeça e não aguentamos nada. Nada. Nenhuma frustração, nenhuma crítica, nem mesmo a nossa tendência genética e natural ao envelhecimento.

Não há virtude em tentar permanecer bonitinho e jovem, mas não há tampouco virtude em permanecer com ideais no céu e não resolvê-los no cotidiano. Tanto um grupo quanto outro precisam abandonar a ilusão. Mas há sim, virtudes na adolescência, que devem acompanhar-nos pela vida toda, mas aprimoradas, sempre, amadurecidas.

Hoje não posso pensar no caminho para resgatar as pessoas que ficam com saudades da aparência dos 16 anos, dos 18. Hoje eu consigo ver quem se pega no idealismo desta época e não o amadurece na vida. Este é um grande problema: queremos um benefício para a humanidade que não se traduz em prática e em trabalho. Passamos o resto da vida apegados a boas ideias que não atingem ninguém de fato.

Reunimo-nos em grupos que exitam em pagar o aluguel! Discutimos se em nossos grupos deve haver dinheiro. Se todo o trabalho não deve ser doado, ‘porque a doação é a forma mais elevada’. E então condenamos todos os envolvidos a ter um trabalho sujo no mundo porque dentro do grupo idealista não pode entrar dinheiro!

Queremos que apareça comida no meio das reuniões, que as reuniões sejam em salas lindas, grandes e arejadas pintadas no mais sublime lilás, mas não admitimos que alguém vai ter que pagar por isso – empresas e empregos que afundam a mão até o cotovelo na porcaria do comércio, de ações antiecológicas, em decisões pouco éticas. Aí jaz a origem da tinta e dos tijolos, aí jaz a raíz da quinoa nos saudáveis cookies orgânicos belamente arranjados sobre a mesa.

O ideal não se realiza se não houver oportunidade de nascer na Terra, exatamente como nós. Passar pela vida ralando os joelhos, ouvindo ‘não’, tendo que esperar para falar. Temos que expor nossos ideais à comida na hora certa, ao sono na hora certa, a exercícios físicos que os tornem fortes na sua vontade. Sim, os ideais são como as crianças e precisam crescer na adversidade do duro mundo material. E neste processo crescerão em virtude e moralidade e então tocarão de fato as pessoas, agora travestidos das roupas que a vida empresta para eles.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.