Quando Não Sei Dizer Não

24 novembro 2013, Comentários 0

menina peixesQuando não sei dizer não meus filhos terão que descobrir sozinhos a diferença da dureza e da fluidez. Vão precisar matar-se muitas vezes porque eu não sei dizer não. Quando não sei dizer não, é preciso experimentar tudo do zero. E ‘tudo’ inclui roupas, relacionamentos, comida, droga. Inclui tudo o que é para dentro e tudo o que é para fora. Todo o essencial que nos faz gente está dentro de ‘tudo’. Não, isto não quer dizer que eu estou condenando meu filho ao sofrimento somente porque eu não dou limites. Quem sabe na sorte meu filho acerte uma boa companhia ou algo que comer que lhe faça bem, mas ele não vai ter certeza e vai precisar pesquisar outras coisas. Na verdade eu condeno meu filho a não ter certezas, a não ter parâmetros para nada.

Quando não sei dizer não eu não dou limites e não consigo manter um bom amigo como amigo a vida toda, porque se no meio dessa amizade exercício de amor fraterno se quiser aproximar um pouco mais, eu não vou conseguir mostrar o limite se vai passar para muito perto, perto demais e, no fim, vai haver confusão e tristeza e eu vou perder este amigo, talvez muitos amigos, e talvez perca até a oportunidade de ter um relacionamento com uma pessoa somente, talvez perca a oportunidade de cultivar o amor entre dois.

Quando não sei dizer não eu vou trabalhar mais tempo que devo ou preciso e vou abandonar meus ritmos, que me deixam saudável, vou abandonar minha família, que vai esperar por mim até cansar – e vai cansar, vou abandonar minha casa e desconhecer meu ninho e onde eu posso descansar. Vou assumir mais coisas do que devo e no fim vou ser cobrada por tudo aquilo que a minha mão tocou. Vou me sentir injustiçada e tudo porque não sei dizer não.

Quando não sei dizer não eu rompo com a sabedoria do feminino em mim e permito um desequilíbrio na relação. Eu empurro meu corpo para espaços que não domino e dos quais vai me custar muito sair. Permito ser invadida em horas impróprias e perco poder sobre mim mesma e sobre a relação. Se não sei dizer não rui o casamento, rui a construção do amor, rui o gosto de estar com o outro.

Quando não sei dizer não, como o que não devo e o que me envenena condenando meu corpo a compensações e resgates e tirando de mim a capacidade de discernir e meditar. Quebro com a natureza completa da minha estrutura e me imponho dor e sofrimento através de doenças e perdas, e reconquistá-la me custa tanto que muitas vezes desisto.

Quando não sei dizer não perco a oportunidade do caminho reto, de chegar a um ponto e reconhecê-lo.

Dizer não é uma graça, um presente. É ser capaz de renunciar a tudo e encontrar-se, ao mesmo tempo no centro de tudo. Só diz não quem vê claramente. Só diz não quem tem coerência. Não é a palavra que aponta para dentro pondo estacas precisas a distâncias certas. É preciso enxergar o não, acolher o não sem medo ou excessos. É preciso descobrir-se a partir do não, porque o não se diz para quase tudo, se opondo ao sim que é para quase nada. O sim é o restante do espaço que se escavou com o não.

Não é a profundidade do relevo, é a ausência da forma, é o silêncio na música. Não é o vazio entre os cheios, é o vão de uma porta. Sem não a vida é uma sopa, é areia movediça, é geleia disforme e sem rumo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.