Quando Entra Água

10 fevereiro 2013, Comentários 3

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Você conhece esta expressão: ‘quando entra água’? Isso deve ter a ver com furos em barcos, mas pense em uma biblioteca, na madeira seca do marceneiro ou no colchão da sua cama. Bom, quem já viveu uma inundação sabe o que isso quer dizer e o que se sente quando entra água. Se não é o seu caso, tente imaginar.

Esse sábado arranjamos um pequeno mutirão – um mutirinho de duas pessoas no qual planejávamos montar uma estante no Liceu. Carreta acoplada no carro, levamos uma carga – tem sempre que se aproveitar a viagem – saímos depois do almoço para fazer render a tarde.

Chuva de carnaval curitibano – friozinho combinando com o céu cinza, e que eu tinha até achado bom – muito melhor que solão e a gente pingar de suor.

Tem um quilômetro e meio de estrada de chão até chegar na sede. Hoje, com a chuva, o saibro fazia uma camada gelatinosa que grudou no carro e recobriu tudo o que tinha na carreta. Chegando lá descarregamos tudo e decidimos lavar antes de guardar. A estante para montar já estava dentro do Liceu, bem seca, mas levávamos outra igual na carga. Deixamos para fora, encostadas no muro. Entrei para buscar um balde com água, esponja e pano.

Mal eu abrira a torneira ouvimos um barulho de explosão dentro do teto da casa. Olhamo-nos assustados, mas já sabíamos de que se tratava: o cano de entrada da caixa d’água, recentemente arrumado se havia partido. Um jorro de água ininterrupto passou a despencar do teto do banheiro inundando tudo. Pegamos vassouras para conter a água e evitar que inundasse o assoalho de madeira da casa. Abri as torneiras e dei descarga no vaso para ajudar a escoar a caixa. Nada! O jorro permanecia igual.

“Feche o registro!” gritei. Mas fechar o registro não adiantou. Sozinha no banheiro empurrando freneticamente a água para vencer a vazão percebi o barulho do motor que puxa a água para a caixa: “Desligue a eletricidade!” Imediatamente o jorro diminuiu para um gotejamento. Eu estava ensopada dos pés à cabeça.

Pingando entrei no quarto onde guardamos roupas para um bazar de usados e me troquei. Me faltaram sapatos e vesti umas botas sete léguas número 43! Eu me senti uma palhaça.

Estávamos os dois ofegantes e cansados. Enxugamos o corredor de madeira e o banheiro todo e nos propusemos a abandonar a primeira empreirada. Nossa, entrou água!

De repente atravessou a casa um ânimo novo, um ótimo humor e muita disposição. Montamos a prateleira que ficou um brinco. Contei pra minha irmã e ela disse: “lavagem, Deri, lavagem de Carnaval!” E foi mesmo – uma festa religiosa involuntária que pôs tudo limpo e no lugar certo. No fim, entrar água era purificação.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • insistimento

    Culpa desses canos novos que não têm rosca… O encanador aqui vacilou de não ter instalado uma câmera para filmar a “pegadinha”. Sorry, friends.

  • Ana Maria Miranda

    Lembrei de algumas enchentes ocorridas em nossa casa do Jardim Botânico. Não aproveitei a oportunidade da purificação.Quase entrava em pânico.Pensando agora, vejo que pelo menos pudemos manter a calma e esperar as águas baixarem para fazer a limpeza.

    • Deriana Miranda

      Acho que limpava mostrando o que era importante manter e o que dava para abandonar. Gosto de pensar que isto é parte das experiências.