Profissão e Virtude

29 julho 2013, Comentários 0

The_Doctor_Luke_Fildes_cropExiste na nossa cultura uma coisa chamada profissionalismo. Alinhem-se dentro disso todos os profissionais que você conhece: o professor, o médico, o pintor, o mecânico, todo mundo. Mas existe algo mais nas relações com os profissionais, que faz com que a gente sinta necessidade de outra característica do profissional que não somente o ‘profissionalismo’. Quando a gente atende ás pessoas no nosso exercício profissional a gente vê que existe mesmo algo diferente que é exigido de nós, ou que faz com que as pessoas confiem mais, estejam mais confortáveis, aproveitem mais o nosso serviço.

A gente precisa ser bom no que faz. Precisa ser eficiente, por um lado, e ético por outro. Talvez seja necessário para isto termos o chamado, a ‘vocação’, para aquele nicho profissional, talvez não só isso. Já a palavra ‘profissão’ traz em si a palavra ‘ofício’ acompanhada de ‘pro’, vamos dizer, um ‘empurrãozinho’ no ofício, uma melhora. Uma atitude de levar adiante, de consagrar aquilo que era vocação interna, agora para fora, para o mundo. Ser um profissional é antes de tudo um exercício de coroar de virtudes o seu ofício.

Eu tenho para mim que tudo o que a gente faz na vida é um pretexto para chegar a ser alguém melhor. A gente pode fazer qualquer coisa, a gente pode desejar qualquer coisa, mas tudo é atravessado pelo como a gente as realiza, pela nossa moralização do ofício.

Eu posso citar um exemplo bem claramente: lembro-me de há uns trinta anos ir atrás de um acupunturista. Eu sentia dor e não queria tomar remédios. Marcamos dez sessões. Eu tenho realmente muita sensibilidade na pele, fazia um esforço enorme para comparecer às sessões e precisava de apoio para continuar indo. No entanto o acupunturista não conseguia me dar este apoio. Ele era eficiente. Muitas pessoas, até mesmo médicos, o tinham indicado por esse motivo. No entanto ele era rude, desagradável, fazia comentários constrangedores e não conseguia me fazer sentir confortável. Bom, eu não pude prosseguir com o tratamento e desisti antes da 5a sessão.

Faltava a ele a capacidade de se colocar no meu lugar, de oferecer acolhimento, de oferecer conforto. Eu sentia necessidade de que ele me tratasse melhor, que mostrasse que compreendia minha dor, meu medo, que mostrasse que queria ser capaz de perceber o que eu estava sentindo. Que tinha dentro de si, enfim, uma vivência que se assemelhava a minha e que lhe permitia me compreender. Mas ele não sabia fazer isso. Ele não parecia ter nenhuma compaixão.

Pensei muito tempo a respeito disso. Ora, fui atrás de uma medicina alternativa porque sei que o que leva as pessoas a se interessarem por isso é, também, uma certa sensibilidade. Naquele caso eu estava enganada. Este profissional por eficiente que fosse não era capaz de compaixão e portanto estava incapacitado de ser gentil. Sim, porque na minha percepção, a compaixão é alguma coisa que acontece da pele para dentro da gente. Podemos sentir dentro de nós mesmos o que está acontecendo fora, em outra pessoa. A partir disso podemos escolher ignorar o que percebemos ou dar mais um passo e tentar aliviar ou sanar o que a pessoa sente. Isto talvez seja a ação da gentileza, o que é a contrapartida externa.

Bom, eu não sei se gentileza é natural de algumas pessoas e não pode ser aprendida, eu sei que há pessoas que simplesmente não são gentis. Mas compaixão sempre me pareceu algo naturalmente humano. Imaginava que quando uma pessoa visse outra em dor ou desconforto seria impossível não se compadecer. Talvez não seja bem assim, no entanto. Parece que há pessoas impermeáveis, indiferentes. Cheguei a conclusão que não se pode exigir de quem não percebe que tenha uma ação de poupar ou aliviar os outros.

Bom, talvez nunca ninguém cobre da gente que sejamos mais gentis se formos muito eficientes. Talvez ninguém queira saber se somos capazes de nos compadecer dos outros. Há mesmo aquelas pessoas extraordinariamente eficientes a quem todos permitem serem rudes ou inconvenientes. É uma combinação tácita: “ele é bom nisso, ele pode!”

Mas eu não acredito nisso. Para mim qualquer que seja o caminho profissional que uma pessoa escolha na vida, esta profissão não passa de um exercício de contínuo aprimoramento de virtudes humanas. Não me convence uma oficina mecânica que não se importa de vexar as mulheres ostentando calendários com modelos nuas – o que falta? Gentileza! Muitas vezes se a pessoa despertar para a realidade daquele vexame ela espontaneamente os retire. Também não me convence um médico impermeável. Mesmo na faculdade é explícito que a tarefa do médico não seja somente a de curar, mas também de aliviar e de consolar. Não me convence tampouco um professor indiferente. Na verdade além de um diploma a gente sempre espera também encontrar um ser humano no profissional que nos atende.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.