Preconceito

16 maio 2013, Comentários 0

Afghanistan - Children - BoyQueria por olhos no preconceito. Eu tenho para mim que preconceito é um apoio necessário em uma certa época da nossa vida. Existe um momento em que ouvimos que não devemos conversar com estranhos, por exemplo, e nesta frase está uma abertura para milhares de preconceitos. O que pode vir atrás de um rosto estranho? Até quando ele é estranho? O que faz de uma pessoa estranha? Nenhuma destas perguntas é consciente ou clara em quem aconselha para não se conversar com estranhos.

Ora, estranhos são os diferentes de nós. Os que não moram conosco, os que não sabem nossos nomes e aqueles cujos nomes desconhecemos. Estranhos são os que não falam as mesmas línguas que falamos ou que não creem nas mesmas crenças que nós. Estranhos são os que não vemos no trabalho ou na escola, ou aqueles que na nossa escola não frequentam a mesma sala que frequentamos.

Pense bem se você consegue determinar com precisão quem é de fato estranho. Estranho é também quem se veste diferentemente da gente, quem come coisas que não comemos, quem trata de assuntos que não tratamos ou quem tem hábitos diferentes dos nossos.

Algo que pode ser bem claro quanto a estranheza as vezes é simplesmente a idade, o modo de andar, o gosto de uma pessoa, enfim, suas escolhas. E no fim das contas, a volta da mesa do almoço, na sua casa mesmo – e isto se você tem a sorte de almoçar em casa com os seus familiares ou amigos, mas na sua própria casa você enxerga gente estranha! Talvez o que faça de nós pessoas estranhas seja justamente a nossa necessidade de sermos exatamente quem somos. De nos mostrar através daquilo que aparece aos olhos dos outros segundo o que nos é importante e essencial.

Os animais não poderiam jamais se observar com estranheza, isto porque o que nos faz dizer que alguém é estranho é a observação das pessoas como se manifestam para nós. E o que está por trás desta manifestação são escolhas que cada indivíduo vai fazendo. As famílias têm ‘colorações’ diferentes, por assim dizer, que se confirmam ou modificam em todos os seus membros. Existe um centro gerador da identidade da família e normalmente até uma certa idade somos parte desta identidade até começarmos a tentar encontrar a nossa própria. A partir daí vamos buscando identidade fora de nós, até despertarmos para o fato de que os seres humanos precisam reconhecer sua identidade interiormente.

Mas recomendamos para nossos filhos que não falem com estranhos. Hoje em dia chega a ser um desafio achar alguém que não seja estranho. Uma criança poderia evitar o próprio avô se ela despertasse para o sentido amplo que abriga a palavra ‘estranho.’

E hoje a gente preza ainda mais a nossa própria identidade. Já fomos uma manada, já fomos vilas, já fomos raças. Já fomos tribos e classes, já fomos homens e mulheres, já fomos povos, fomos famílias. Hoje queremos ser reconhecidos em cada traço nosso. No nosso DNA, na nossa íris, na nossa digital. Repetimos orgulhosos que não há um ser humano igual ao outro.

O fato é que hoje não temos muito apego ao nosso país. Testemunhamos nossas famílias se fragmentando muito cedo e convivemos com isso por toda a vida. Não defendemos nossa escola, porque isto não faz sentido. Não nos

orgulhamos de nossa cidade, nem temos afetividade por ninguém que nos represente. Ninguém mais pode nos representar. Nem nosso irmão. Nem nosso pai. Nem qualquer sujeito que se admire muito.

Somos muito complexos, somos muito originais, somos únicos. Somos todos estranhos, portanto todos sozinhos, portanto todos estamos sob a ameaça do preconceito que jaz por trás da frase: ‘não converse com estranhos.’

Sim, o preconceito generaliza, ajuda a organizar essas pessoas tão originais em ‘gavetas mentais’. O preconceito protege, em certo grau, de se lidar com a minúcia e com a variedade da humanidade. E afinal, nem todo mundo é confiável. Mas quem, nestes 7 bilhões, exatamente? O que os identifica?

Talvez o preconceito ajude, por favor concedam esta hipótese. Mas chega uma hora em que ele estará ameaçando esta característica tão humana da busca pela identidade. E nesta hora ele nos encarcerará na solidão.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.