Preconceito II

17 maio 2013, Comentários 0

rousseau_surprised_tigerRefleti mais sobre o preconceito. Percebi que preconceito é gerado pela cultura. Lembre-se bem: ‘não converse com estranhos’. E a nossa confiança em que nossos filhos ou quem quer que esteja ouvindo este conselho vá ter um julgamento anterior ao conhecimento. Um conceito pronto sobre alguém que ela não conhece. Um preconceito.

Este é o preconceito de que eu falava, o que protege de alguma maneira seu filho de pessoas que podem não ser boa companhia. Pelo menos até que você possa conhecer o sujeito – um homem ou uma mulher e dizer se ele é estranho o suficiente para ser mantido longe, ou se é um estranho que pode ser incorporado a sua familiar.

E isto mostra o seguinte: o preconceito é um muro de proteção até que se tenha força e maturidade o suficiente para não ser varrido pela força da individualidade do outro. (Tomara que eu tenha sido clara aqui.) É assim que enquanto somos frágeis não podemos enfrentar o poder da individualidade do outro. Mesmo que a individualidade do outro – aquilo justamente que o faz estranho, porque ele escolhe roupas, linguagem, hábitos diferentes dos meus – não seja ruim.

A gente não quer que nossos filhos conversem com gente estranha porque isto de alguma maneira ameaça o modo com que os estamos criando. É claro que estamos certos de que o modo com que os criamos é o melhor – nós nos esforçamos bravamente para isto. E no desenrolar do crescimento dos nossos filhos vamos aos poucos perdendo controle sobre as pessoas que eles conhecem até que um dia eles nos trazem para casa uma amiga muito estranha. Uma menina cuja fala você mal entende e que se veste da maneira mais inconveniente possível. Ou um rapaz que absolutamente não deveria entrado na sua casa, e a quem, definitivamente, ninguém deveria ter oferecido água! Porque você não os criou, não são seus filhos.

Acho que ninguém nunca pensa na ameaça que seu próprio filho vai representar na casa de uma outra pessoa. Imagine se ele aparecesse repentinamente diante de um menino pigmeu. Diria lá a mãe do menino: ‘cuidado com este guri. Ele se veste da maneira mais absurda, come de um jeito estranho, ninguém o entende…” Pois é, talvez isto resuma tudo!

Mas ainda estamos fazendo o muro para proteção de nossos filhos. É uma bolha que os preserva enquanto eles não podem se virar sozinhos. E em nós – não em nossos filhos, mas em cada um de nós, o preconceito mantém afastados aqueles com quem não podemos lidar ainda. Por fragilidade, às vezes, por medo outras vezes.

Precisaríamos ser muito mais fortes se quiséssemos estar diante de todos simplesmente aceitando sua individualidade. Aceitando e acolhendo que cada ser humano se expressa de maneiras inusitadas e resolve o mundo a sua moda, segundo o mundo se apresenta para ela.

Seria fantástico, na minha opinião, se conseguíssemos passear pelo mundo com nossos filhos como um professor de geografia. Mostrando que por aqui e por ali a terra é mais vermelha porque tem mais ferro, e lá mais branca porque tem calcário. E só isso. Sem dizer: esta terra aqui é a boa, porque é com esta que estamos acostumados lá em casa. Mas sermos capazes de mostrar árvores e climas, e solos, e modos de existir e de ser que lá em casa não conhecemos, mas que existem no mundo da mesma maneira que nós.

Somos seres humanos, criaturas misteriosas em sua configuração. Cheios de promessas e fragilidades. Cheios de estratégias para viver e expressar-se. Somos amorosamente cuidadosos com nossos descendentes. E todos os nossos descendentes somos nós mesmos, limpos até que alguém nos ensine o contrário.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.