Praticar Beleza

4 janeiro 2014, Comentários 0

banquetenupcialBruegelVelhoVocê pode ter lido este título já esperando um texto hedonista, meio narcisista, etc. Ainda bem que você iniciou o texto, porque eu quero que este texto seja uma ode. Não à superficialidade e à futilidade, mas ao essencial.

Eu sou daquele time de gente que acredita que em tudo o que se vê está morando a essência. Na pedra, na flor e em cada pessoa – estenda isto para o que de maior você pode conceber e também para o mais mínimo – tudo. E aí que cada coisa se revela nas suas formas superficiais, na aparência, naquilo que atinge nossos sentidos.

Gosto de prestar atenção as coisas – é bom lembrar que não há só coisas paradas no espaço, tem também as que vão sendo aos poucos, ou que acontecem esticadas do tempo: a vida, a música, o trabalho da gente, os hábitos… – e prestando atenção às coisas a gente acaba vendo muito. Vendo mais do que aquilo que está presente ao olho. A gente vê a vontade que se teve diante daquilo, para que aquilo se realizasse. A gente vê a maestria de quem está fazendo as coisas, e vê, mais que tudo, quanto aquela vontade está ‘a vontade’ dentro da sua obra.

Entende isso? É que a gente cozinha, por exemplo, e quem assiste alguém cozinhar é capaz de medir num ‘sismógrafo’ o amor que tem a cozinheira pelo cozinhar. Vê escolhas o tempo todo, vê os costumes, os hábitos, e olhando bem o puxar as panelas, mexer as colheres, tirar das gavetas acaba vendo uma dança. O cozinhar ascende do simples ‘fazer comida’ para alguma coisa que já é arte. Arte efêmera entre a arte plástica e a música. Aparece, mas não está ali para aparecer, produz matéria sólida, mas não é a matéria sólida que faz a beleza, é o fazer.

Não precisa pensar nos cozinheiros franceses, na cozinha japonesa – sem dúvida são realizações de povos para quem a cozinha significou muito. Existe uma preocupação plástica na apresentação dos pratos, sem dúvida. Mas pense no cozinhar da sua avó, no seu cozinhar. A gente as vezes repete um prato. Ao longo da vida a gente faz arroz e feijão, ou faz de um certo jeito um patê que todo mundo adora. Sempre igual no sempre diferente. Não existe receita. Ela está na arrumação da cozinha, na altura das gavetas, no lugar onde guardamos os ingredientes. E mais importante, a receita está no gesto de alcançar cada uma destas coisas. No fim, a receita é a dança.

E em tudo existe este lado afastado do que é prático. Existe a fome, por um lado, o que não exige nada além da comida. Mas existe o cozinhar e o ato de cozinhar pode ser belo. Talvez não para todos os olhos, mas isto nem é o importante. Mas a beleza está na dança toda e emana do cozinhar e daquela cozinheira. Mesmo depois que a louça do almoço já está lavada a beleza não cede, permanece por toda a parte, vai na barriga dos comensais, nos seus sorrisos, nas palavras da cozinheira e reverbera na vida do mundo. A beleza abre espaço para outras belezas, para o refinamento de tudo o que já foi feito. Sugere fazer melhor e mais belo cada vez.

E aí está o ponto. A beleza é o que faz do mundo este lugar extraordinário. Não, eu não sou daquelas pessoas que precisam estar penteadas e rodeadas de quadros famosos e esculturas fantásticas, não me imagine andando por jardins maravilhosos, não. Pelo contrário, sou bem modesta e talvez porque as coisas mais corriqueiras para mim já revelem muito grande beleza. Beleza na confecção ou na inteligência ou sabe-se lá em quê que ali a beleza se revele.

Então tudo está entre o útil e o belo. E embora talvez tudo seja útil, a beleza que nas obras é o que faz o mundo. Ah, mas beleza não se ensina! Não, mas tem um momento irresistível na vida em que se pára de usar o automático e se começa a produzir poesia no meio da fala cotidiana, um momento em que se passa a banhar ou a se vestir de maneira particularmente harmônica e, embora ninguém veja, então a gente pratica a beleza. Eu desconfio que isto é uma das evidências de que a gente é humano.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.