Pra todo mundo.

2 junho 2014, Comentários 0

Matisse A DançaAh, sim, estamos em um tempo em que entramos em processos desenfreados de criação. Estendemos as mãos e vemos que já há muitas pessoas que, do mesmo jeito que nós, estavam atrás daquele ideal. Apaixonadamente nos unimos a elas na criação de uma obra, de uma empreitada que vai com certeza, servir à humanidade com brilho. E então alguém entre eles nos decepciona. Nos atraiçoa covardemente, nos mente e mente a todos a nossa volta. Então você será questionado, duvidado, afastado e sabe-se mais lá o quê.

Mas você tinha razão, não? Você examina suas razões uma e outra vez de novo e de novo e percebe quão puras, quão isentas, quão sublimes eram suas razões. Portanto as razões daquela outra pessoa não eram válidas. Se eram opostas às suas eram, portanto, impuras, parciais, vis… E você, claro! se sente ofendido e traído. “Os fatos estão aí para quem queira vê-los!” Não é?

Talvez não seja. Nossa capacidade de compreensão das coisas é tão estreita que precisamos de uma dúzia de pares de olhos para examiná-las com justeza e precisão. Pelo menos! Ninguém está dizendo que você estava enganado. Tampouco que a outra pessoa é quem estava certa (mas não perca isso de vista). Não é isso. Apenas é bom ter em mente que seria possível que a pessoa que te ‘traiu’ estivesse simplesmente olhando a mesma coisa que você, só que de um outro ângulo.

E você ouve o que ela diz como mentira. E talvez, ela também, te acuse assim. Talvez vocês estejam em pontos opostos para olhar os fatos, e por isso se parecem tão diferentes quando vocês falam sobre eles.

No entanto, isso tudo é passado. E já não devia importar mais.

Não adianta você ficar lamentando o quanto você esperava desta pessoa, porque ela te pareceu “tão nobre, tão digna, tão cheia de princípios…” Muito bem. Então você teve a oportunidade de ver o melhor desempenho da vida desta pessoa – antes daquilo que você considera como “a queda”.

Pois guarde isso na memória! Este vislumbre de quem ela é talvez jamais volte a aparecer por toda a vida, mas se você a guardar na memória, se você a guardar no coração, você vai estar colaborando com o desenvolvimento desta pessoa para sempre. Não era esta a tua tarefa , afinal? Um serviço à humanidade? Ou porque esta pessoa saiu do seu rol de amigos agora ela também saiu da humanidade e você não tem nada mais a ver com ela?

O Dalai Lama que fala: “As vezes não conseguir o que se quer é uma tremenda sorte.” Mas que difícil encarar isso desta maneira! Mas se a gente tem mesmo a nossa consciência estreita, como é que a gente pode saber se isso não é um retorno de um movimento que a gente plantou no passado, ou, ao contrário, uma correção no caminho da nossa vida para a gente conseguir alcançar algo que devemos viver no futuro?

Sempre me pergunto por que não conseguimos olhar as coisas com serenidade. Simplesmente acolher os eventos sem gostar ou desgostar deles. Seria mais simples. Com certeza o que somos hoje não teria se realizado assim se tivéssemos passado naquele primeiro vestibular. Ou se não tivéssemos perdido o bonde… Traduzindo o Lama: talvez perder o bonde seja uma tremenda sorte!

Do que nos protegem os eventos de hoje? Quais caminhos não devemos trilhar e com quem? Nenhum deles vai ficar explícito para a nossa mente estreita de agora, mas há que se ter fé. Saber que, na verdade, não estamos abandonados a nossa sorte. Que estamos sempre sob olhos atentos e cuidadosos que jamais se distraem.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.