Pouco Peso

27 março 2014, Comentários 0

Sempre recebo na minha casa visitas de surpresa. Eu gosto muito de receber visitas, aliás, e as pessoas sabem disso e vêm me visitar. Minha casa não tem muitos fricotes, então não tenho grandes ansiedades se vai estar arrumada o suficiente, por exemplo. Como a casa é de madeira, estamos numa eterna perseguição dos ‘outros moradores’ que de vez em quando resolvem roê-la. Eu amo minha casa e não ligo ter que trocar uma tábua aqui e outra ali de tempos em tempos. Pesquisar venenos que não matem todo mundo junto nem sejam uma bomba com consequências desastrosas. E, é claro! já tivemos que fazer grandes mexidas para tirar colunas e vigas que foram atacadas de cupim. Quem tem casa de madeira que dê seu testemunho.

Mas tem grandes vantagens em viver em casa de madeira. Outro dia veio uma visita e eu mostrei a casa a pedido dela. Ela foi andando, quis conhecer os quartos, quis subir no sótão. Ela se debruçava em cada janela e falava da paisagem, de ter tanto pinheiro a vista da minha casa e de a vizinhança ser tão calma – bom, na verdade tem dias em que o pessoal se anima para grandes músicas, às vezes de um gosto que nem chega perto do meu! E há noites, também, não tão calmas assim. Mas é verdade, na maior parte do tempo minha casa é só canto de passarinhos e uns latidos ao longe dos cachorros da vizinhança.

Minha visita daquele dia repetia de quando em quando: ‘eu adoro casa de madeira!’

Cada vez que isso acontece fico pensando que a gente tem um certo peso no mundo. A gente pesa os muitos quilos do que come, portanto tenho cá para mim que a gente não deveria comer demais, nem inadequadamente, porque o peso da indústria da comida não é nada para se ignorar. Lembre-se de como vêm os morangos que você compra no mercado: embalagem de isopor? De plástico? Cobertos com filme. E isso se são orgânicos, se são cheios de agrotóxicos que é uma regra para morangos, ainda tem o impacto na saúde, a busca eventual por um médico, a entrada no mundo das farmácias – move tanta coisa entre lixo que resta e lixo que entra!

Penso na roupa que a gente veste. Em quantas vezes a gente precisa de fato – e sem exageros neuróticos de ascetismos! Mas quanto mesmo que a gente precisa comprar de calças, de blusas, de sapatos para viver confortavelmente? Penso na indústria das roupas – de onde são plantados o linho, o algodão, de onde é produzido o nylon, de onde se misturam as fibras, se tingem.  Penso nas máquinas gigantescas que tecem todos os tipos de tecidos e quem está lá junto – desde o plantio, a colheita até a fábrica. E depois o corte e a costura – em que condições se trabalha aí? E há mesmo necessidade de eu ter estas roupas? Justo estas de grandes indústrias? A gente vai comprar algumas, com certeza, mas tem que ponderar.

Não quero pesar demais. Não quero vergalhões de ferro na minha casa, não quero placas indestrutíveis, não quero pedras maravilhosas extraídas das minas mais profundas. Eu acho elas lindas, mas não quero ser responsável pela gastura de ir atrás delas. Eu não quero que mais que ninguém sofra injustiças geradas das minhas escolhas só para retirar da terra o que eu precise para me proteger, para me enfeitar.

Na verdade eu nem quero ter uma casa novinha, não quero ter o peso da casa depois de mim: uma casa que vai demorar para sumir do mapa, ser consumida para virar solo de novo, virar nada. Minha casa tem quase 90 anos, tinha quase 80 quando vim morar pra cá. Aprecio poder usar de novo e de novo uma casa que exigiu da terra uma quantidade de pinheiros para existir – numa época em que era assim que se faziam casas por aqui.

E ela está velha, sempre se desmanchando – dá um trabalho pra cuidar!  Mas eu prefiro assim. Ia me preocupar demais se tudo o que eu uso pra viver ficasse incomodando o resto da humanidade como um lixão, para sempre!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.