Por inteiro

14 novembro 2013, Comentários 0

auriga de delfos

A vontade que a gente tem de ir ao encontro do outro é maravilhosa. Acho que foi a Senhora Blavatski que disse que a gente nunca pode ultrapassar os limites do altruísmo. E talvez seja isso mesmo. Não dá para ser altruísta em demasia. Mas esta frase pode ser lida de maneiras diferentes.

Mas pode ser que alguns de nós precisássemos ouvir diferente: não passe do limite sendo altruísta. Os limites aqueles mesmos: não ultrapasse os limites da dor, da autopreservação. Eu sei que há sempre casos. Acho que a realidade que mais me chocou foi ver no avião a recomendação de, em caso de acidente, vestir primeiro a sua própria máscara de oxigênio antes de tentar atender os outros. Isto resume tudo.

A gente devia sempre poder se aproximar dos outros sem que em nós nada se rompesse. É feio ir atender os outros e perceber que ficou sem brilho ou sem graça ou sem esperança, como seria ficar sem uma mão ou sem os olhos.

A gente deve experimentar levar para as outras pessoas a Graça através das próprias mãos , e não oferecer as próprias mãos e ficar sem elas. É um sacrifício triste se assim for, porque tem beleza no sacrifício, mas você sem mãos não pode atender a outras pessoas, e pessoas há em filas.vênus de milo

A gente deve experimentar levar o conforto do abraço sem perder os braços. Não! Estes são seus braços, os únicos que você tem e sem eles acaba a possibilidade da oferta.

A gente tem que experimentar oferecer carinho com os olhos, sem abandonar os olhos com que recebe o carinho. Os olhos são seus e você precisa repetir o olhar carinhoso pelo resto da vida e não deve perder seus olhos jamais.

É preciso permanecer inteiro para poder se oferecer inteiro sempre. É preciso que haja o movimento para fora com amor tão grande que vaze em amor para dentro. Cuidado e carinho transbordantes para fora para que inunde dentro, também.

Sabe aquelas imagens estonteantemente belas da Vitória Samotrácia, da Vênus de Milo ou do Auriga de Delfos? Aquelas estatuas magníficas de tempos remotos? Há tanta plasticidade, tanta beleza, tanta graça! E a gente não as vê inteira. Nunca ninguém as vê, porque no caminho elas perderam os braços!

É isso. É essa frustração que a gente sente porque não está tudo ali diante dos seus olhos. Você não pode apreciar o trabalho do artista por inteiro, aquilo que é produto de uma cultura interessantíssima de maneira completa, enfim. Pense se você tivesse a oportunidade de preservar os braços e a cabeça da Vitória da Samotrácia ou o conjunto inteirinho do Auriga de Delfos você os teria preservado. Porque é impossível não querer o completo, o inteiro.

afrodite agachadaConosco não é tão diferente. Claro, não são mesmo os olhos ou as mãos que vão embora, mas em nós o que falta são pedaços da nossa alma, partes das nossas infinitas potencialidades e talentos que a gente precisa preservar e que não devem jamais ser arrancados ou abandonados.

Você vai ser convidado a ir para o mundo e estender os braços a todos os seres humanos, e é preciso abraçar a cada um, é maravilhoso que a gente possa fazer isso, aliás. Você vai atender muita gente, vai acarinhar e vai cuidar. Mas para quê? Ora, é preciso dar de comer a quem tem fome e agasalho aos que tem frio, não é assim? É preciso dar conforto aos que sofrem no espírito, como se diz. Mas você é mais um na fila. Não se quebre, não se parta.

Na verdade você é o único ser humano que você será capaz de transformar ou melhorar nesta vida. Você é sua única matéria prima e só pode contar consigo mesmo para oferecer ao mundo e à humanidade. Egoísta como possa parecer, é preciso que se diga: Cuide-se.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.