Polir por dentro

14 agosto 2014, Comentários 0

20140614The Lute Player  Orazio Gentileschi-125Está certo, a vida inteira a gente tem em quem se apoiar. E a gente pode pedir e receber auxílio, ou nem pedir e receber de presente, como na época em que somos crianças ou jovens, ou talvez mais tarde contratando um profissional.

Talvez a gente não quisesse, mas é bom ter a quem recorrer. De repente, porém, nossos empreendimentos nos levam a uma situação de absoluta independência, mesmo que dentro de um grupo de trabalho. As coisas acontecem dentro de você – só dentro de você. Você pode ter empregados de quem reclamar, e dizer que o sucesso foi atrapalhado por eles. Sempre há desculpas. Mas há estes momentos em que você está sozinho e só dá para cobrar-se a si  mesmo e só se mede o passo adiante, o sucesso, quando você trabalha para isso.

Este é um momento de extrema consciência de humanidade. Na verdade, nada acontece mesmo fora da gente. Está todo mundo comprimido em seu próprio universo no seu caminho de evolução. Se eu quero que meu trabalho tenha sucesso, eu tenho que trabalhá-lo dentro de mim. Se há ajustes – eles estão, também, dentro de mim. Não há nada que eu possa atribuir ao meu vizinho, nada que eu possa achar fora, ninguém para receber a culpa.

E claro que temos pressa. Queremos tudo para ontem, mas a medida das coisas é a nossa mesma. Qual a velocidade da nossa mudança dentro de nós? Somos capazes de construir um castelo da noite para o dia? Somos capazes de ler um livro de cabo a rabo, compreendendo todos os detalhes em meia hora? Somos capazes de fazer uma tese de mestrado em uma semana? Nada disso é possível fora e isso se deve a termos compromissos conosco mesmos, com as nossas mudanças pessoais a respeito daquilo em que estamos engajados.

Por mais simples que seja o seu projeto, comece a perceber que o projeto é um argumento para mexer com você por dentro, assim como todas as outras oportunidades dessa vida. Somos convidados a sermos mais do que fomos, todos os dias.

E não basta ser bom em alguma coisa: “sou um ótimo redator a vinte anos e nunca mais tive que fazer nada…” Hahaha! Não existe isso. Crescemos sempre, e se vamos perdendo o desafio de conquistar, precisamos procurar novos desafios. Temos a coceira das ideias que querem nascer no mundo, queremos ver o mundo diferente, colaborar, interferir, colocar o que é certo. E aí que nascem nossas oportunidades de fazer de novo.

Na profissão, nos relacionamentos, tudo nos pede esta presença. Tudo nos desafia. Tem gente que até resiste bravamente: você pode querer estar quietinho, vamos dizer que conseguiu ser programador e mora só, entrega tudo por internet, e talvez consiga passar dias e dias sozinho.

Você praticamente não vai achar ninguém, você não devia ter nada que te instigasse a mudar quem você é. Mas algo em você, mais cedo ou mais tarde vai te morder por dentro pedindo para que se exponha de novo a aventura de se trabalhar a si mesmo para chegar a algum lugar. Você vai precisar que algo seja diferente e que se realize da maneira que você imagina, e aí… bom, aí você é fisgado!

Essa é a capacidade humana de ir além que está entranhada em cada um. Às vezes aperta muito e você se sente exigidíssimo: não há um gesto ou uma palavra sua que passe sem ser examinada cuidadosamente. As vezes nem você aguenta a própria exigência. Mas isso é uma revelação. Ninguém terá maior sorte do que a de perceber que realmente não existe nada que a gente faça na vida que não seja um caminho de se polir por dentro.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.