Pertencimento e Competitividade

2 agosto 2013, Comentários 0

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A nossa humanidade descansa em uma história longa de guerras e competição. Sentamo-nos de costas para fatos claros como o de que nem mesmo uma família possa existir sem que haja compaixão e renúncia. Um bebê não sobrevive pela competição. De jeito nenhum. Nenhum de nós, aliás, estaria aqui fosse a vida feita de competição. É preciso que alguém ceda a comida, o dinheiro, o espaço, o tempo para que a gente sobreviva. É preciso que alguém dedique cuidado desinteressado para que a gente passe pelo sarampo, pela gripe, pelas febres. É preciso que haja amor incondicional para que a gente possa em anos ter a mesma oportunidade.

A competição gera a guerra, e guerra é contraproducente. Egoísmo é contraproducente. Ganância é contraproducente. Não haverá humanidade para aplaudir o último vencedor, não haverá filhos herdeiros do vencedor da grande competição pela vida. A humanidade não se baseia nisso. Ao contrário, ser humano é cuidar, é poupar os outros, é compartilhar recursos, tempo, disposição. A humanidade só estará em pé para usufruir de algo se forem os frutos da colaboração.

Há comida para todos, há abrigo, porque há amor. Não há limites para nada disso, há, sim limites para o egoísmo. O fim do egoísmo é a eliminação, é a morte de um dos competidores. Curioso como possa parecer, pertencemos sempre a mesma espécie e na nossa competição somos como o cachorro brigando com a própria cauda! Quem vencerá? Para quem estamos torcendo?

Você poderia me dizer que é natural mesmo entre crianças a competição. Competem pelo amor dos pais, competem pelo melhor bife, competem pelo melhor espaço frente a tv. Mas é próprio do egoísmo a competição e nada tem a ver com responsabilidade coletiva e a ideia de sobrevivência da espécie. Em larga escala, a competição destrói famílias inteiras, nações, porque quem esmaga o outro pensa de si mesmo mais merecedor de sobrevivência, e ainda: pensa de si mesmo que os recursos são de seu direito e não de direito dos outros.

Mas se formos observar a humanidade perceberemos que quanto mais velha é uma pessoa, usualmente ela se desapega dos recursos materiais que a mantiveram viva até aí. Para um idoso é muito fácil não pensar mais na roupa que veste, nos lugares onde vai e em quanto tem no banco. Olhe para a sua família agora e não fique pensando naquela meia dúzia de expoentes financeiros que morreram debaixo da trombose mundial que criaram. Não use estes como exemplo, mas use as centenas de humanos com mais idade, que você conhece pessoalmente. Não há ganância que resista aos anos. A gente simplesmente não precisa mais de nada para si.

Talvez a gente nunca tenha precisado de nada, de fato. Talvez a gente só precise de recurso enquanto somos absolutamente vulneráveis e não conseguimos criar nada, trabalhar em nada. A partir de uma certa idade, ou de um certo amadurecimento não precisamos mesmo de muito. Somos capazes de dividir nossos próprios recursos ainda que eles sejam parcos. E o fazemos.

Parece que no início da vida a gente só percebe aquilo que nos vai deixar mais confortáveis e mais seguros e, depois que estamos mais velhos temos a impressão de que nada é realmente necessário. Não se quer mais possuir o mundo, não se quer mais possuir o amado, não se quer mais ter os filhos perto de si, mas renuncia-se a tudo para que o mundo esteja bem, para que exista amor para todos, para que os filhos possam estar bem onde estiverem porque deste momento em diante o que interessa é apenas pertencer a uma humanidade inteira – na paz.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.