Perspectiva

18 fevereiro 2013, Comentários 0

perspectiva-02Quando a gente dá aula de desenho ou senta para desenhar procuramos sentar-nos de modo a visualizamos o que estamos de fato tentando colocar no papel. Na maioria das vezes ainda colocamos um grafite sobre o branco. Nós ‘ganhamos a perspectiva’, essa parte é uma das mais importantes. Se não escolhemos a direção a que olhar e descartarmos o que é também interessante, mas não naquele momento, nada sai direito, nos distraímos. Não desenhamos, ficamos perdidos entre vários rascunhos sem direção.

A vida é exatamente assim, podemos ficar sem ter foco, tudo nos distrai, porque tudo é interessante, a vizinha é interessante, as notícias são interessantes, a nova forma de decoração é interessante, os novos namoros, dores, amores e rompimentos alheios são sempre interessantes.

Mas não são a nossa vida, quanto mais vivemos no entretenimento menos vivemos a nossa vida. Uma vez recebi no facebook uma mensagem assim ‘grande campanha pela vida…cada um cuida da sua’, eu ri muito, adorei e essa adorável filosofia de facebook me fez pensar que ali efetivamente estava a solução para muitos problemas, esses criados por cada um individualmente.

Olhar a grama do vizinho faz com que a gente perca o foco, deixamos de visualizar o interno, o que nos pertence, o que nós escolhemos, em que podemos fazer a diferença e o que é muito pior, deixamos de viver a nossa vida.

Se nós não temos perspectiva, deixamos de viver, porque se a gente não vive, não se emociona, não resolve, não luta pela nossa própria vida, estamos simplesmente rabiscando à toa. Estamos deixando o barco deslizar, sem direção, sem saber aonde vamos parar. Sim, sem dúvida, até parar muitos sustos acontecerão, novas paisagens passarão, mas sem pegar o remo, escolher uma perspectiva, vislumbrar a mudança, nada acontece.

Sentar-se e focar-se para onde é a direção que devemos seguir, o que é mais importante agora, quais passos eu tenho que dar, aonde eu quero chegar, qual é o prazer que tenho nessa caminhada, que desejos que eu quero carregar comigo, de quais posso me desvencilhar, tudo isso deixa a jornada mais leve. É claro que hoje, você se sentará numa posição, no ano que vem, vai ter caminhado e a perspectiva vai mudar.

Mas é sua essa perspectiva, sua grama, seu remo, seu lápis com sua vontade estará na sua mão, aí é só fazer ele passear pelo papel, sentir o atrito, porque sem um pouco de força nada sai pronto, certamente seu desenho de hoje não será tão legal quanto o próximo. Mas dê uma olhada em volta, escolha o que melhor você localiza para gravar, observar, contemplar e sente-se de frente para isso, essa é a perspectiva da própria vida.

Com a perspectiva escolhida, veja onde é mais escuro, onde é mais claro, onde está esfumaçado, e vá, risquinho por risquinho se apropriando dessa imagem, que já está na sua frente, mas vai estar no papel, pronta para ajudar a se apossar de si mesmo, unindo a  visão com a mão, ela é que vai demorar para obedecer a vontade mas é ela que temos que comandar, nossa vontade tem que ser forte, para treinar essa mão a obedecer quando os traços tem de ser mais longos, mais fortes, mais fracos, quando o lápis tem de sair do papel.

É um treino que vale a pena, conhecendo aonde a gente quer ir e como estamos indo, também poderemos apreciar melhor o desenho da vida dos outros a nossa volta.

Regiana Miranda

Professora de artes e trabalhos manuais e co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner de educação para a autonomia de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Regiana acredita no amor como fonte transformadora da vida e inspira pessoas a se tornarem mais conscientes do seu próprio amor para viverem mais felizes e de forma mais autêntica.