A perseguição nossa de cada dia

26 março 2014, Comentários 0

picasso sleeping peasantsSabe esta mulher que você vem desejando há meses, há anos, que é discreta e bonita, que só diz as palavras mais acertadas, que pisa nos lugares certos e que todo mundo admira? Um dia ela vai ser sua esposa. Você se descobrirá em anos rodeado da família que você construiu com ela. E todos os dias você amará mais esta mulher.

Talvez vocês tenham filhos, e talvez seus irmãos tragam primos para brincar na sua casa. E você vai ser um dos poucos seres da terra a apreciar o som irresistível da risada das crianças e vai ver pés macios e sujos entrarem pela sala.

Você terá a alegria de sentir o cheiro das delicadas flores que a sua mulher espalha pela casa, os rolinhos de madeira que ela arranja no banheiro para liberar perfumes. Saboreará a comida que ela faz com toda a beleza e temperos. A casa vai ser o seu espaço mais querido porque sua mulher pisa nele.

Anos de dedicação e amor – você sabe que no começo seu amor não era nada comparado ao amor depois de tantos anos de convívio e trocas. Você também sabe que nada existiria se não fosse a sua união com esta mulher. Você reconhece nas crianças o testemunho da alegria que é sua casa. E você vai se acostumar com isso.

Ela também. A mulher da sua vida vai crescer no seu amor. Vai aprender a fazer coisas que não sabia. Vai ser uma pessoa que não era antes. Vai descobrir que pode ser mãe com toda a sua plenitude – vai descobrir que a mãe dela, que o médico, que o farmacêutico são pessoas que podem dar sugestões. Em casa vai se transformar em uma curandeira nas madrugadas de febre, uma feiticeira contando histórias para as crianças dormirem, vai ser uma maga no amor com você e você estará entregue.

Ela ama você muitíssimo e você a ama também tal e qual. E um dia ela vai olhar no espelho e se ver velha e achar que você não envelheceu. Ela vai achar que você é um menino no rosto e no coração, vai achar que você não veio junto com ela, que você a traiu.

Enquanto ela fazia os partos, deixava de dormir e se dedicava à casa, você cultivava o bem estar de ser bem servido, de estar apoiado e na passagem dos anos ela perdeu você de vista e você a perdeu também, achando que ela viveria para você.

As crianças crescem, seu amor esfria, ela vai embora.

Vai embora para te deixar sozinho na casa em que vocês viveram. Vai para nunca mais dizer que te ama, nunca mais te dar um abraço no escuro, nunca mais tagarelar sem parar do teu lado. Vai deixar você no vazio.

E você? Bom, você vai se sentir traído! Você vai xingar cada vez que falar o nome dela, você vai jogar uma praga em cada passo que ela der. Você vai ficar velho, ranzinza e enrugado. Vai odiar as mulheres todas, vai amaldiçoar o dia em que a viu pela primeira vez.

Ela vai embora porque achou que gastou 20 anos da vida e você a traiu deixando tudo nas mãos dela. Você acredita que foi traído porque ela te deixou sozinho depois de uma vida de dedicação e amor fiel.

Daí vocês marcam para a próxima vida o retorno, a vingança. Marquem para ser irmãos e se cobrem a traição roubando a mulher do outro. Na outra vida ainda podem marcar para vir como colegas e marquem para cobrar a traição caluniando o outro em público.

Ah, isso não tem fim. Pode-se sair do amor mais bonito que a traição sempre vai gerar uma cadeia interminável: eu cobro, depois você me cobra, depois você me deve, e assim fazemos da eternidade uma arena de acusações e punições.

E de quem é a culpa? Isso pouco importa. O que importa é que se eu não olhar para os olhos daquela mulher que vai embora com a certeza que fui eu mesmo um tempo antes que encomendei aquela traição, se eu não reconhecer que sou eu quem provoquei a primeira dor – com uma primeira ofensa. Se eu não souber profundamente que ela me entrega um pedido meu e que minha única resposta poderia ser um ‘Muito obrigado! Tudo se encerra agora. Vá em paz!’ Se ela não for embora livre da minha mágoa, e perdoada, bom, então estamos os dois condenados.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.