Perguntas Novas

11 fevereiro 2013, Comentários 1
experimentando
Um grande sucesso da nossa época é a escola. Ora, o intuito da escola desde há muito foi difundir as grandes conquistas da humanidade, foi democratizar o conhecimento entre todas as pessoas. Os antigos reservavam aos iniciados, aos escolhidos a tarefa de receber e guardar o conhecimento. Era um tempo para se fazer assim. Foram valorizados os sacerdotes, os monges, os feiticeiros, as bruxas. Bom, sempre teve altos e baixos para as bruxas e os feiticeiros. Enfim, o conhecimento não era para todo mundo e depois da escola passou a ser. Houve uma seleção daquilo que era para ser guardado e democratizado – muito do que as bruxas, os feiticeiros e os sacerdotes souberam não entrou no currículo das escolas.
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Mas de onde vem este conhecimento todo? O conhecimento em todos os âmbitos me parece que vem das entranhas do homem. É, no fim das contas o modo com que o homem  digere o mundo. Daí ele põe em um ‘livro de receitas’.
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Devemos considerar que durante longo tempo a humanidade conquistou o conhecimento através da permanência diante de perguntas a princípio irrespondíveis, que duravam anos e anos, vidas inteiras, e que foram como que limadas pelo trabalho árduo, pelos desvios após inúmeros erros, por pensares persistentes, resistentes e disciplinados. Em certo momento, com sorte, vinha uma iluminação e uma resposta. Muitas vezes a resposta definitiva, não raro apenas mais uma pista na direção da solução.
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Para tais seres houve tempo em abundância, disposição, persistência, vontade, concentração e amor humanos para levar toda uma vida em torno da tal pergunta. Havia uma direção como que ‘soprada’ por uma musa, por um guru ou ideal, algo superior que levava o ânimo adiante.
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Hoje em dia os preciosos frutos de inúmeras biografias humanas amorosamente envolvidas com aquelas perguntas podem ser encontrados trinchados em livros didáticos: Pitágoras, Sócrates, Ptolomeu, Copérnico, Aristóteles, Alexandre, Mao Tse Tung, Guttenterg, Lutero, D. Henrique, Confúcio, Einstein, Jefferson, Marie Curie, Budha, Henry Ford, Picasso, Chagal, Leonardo e muitos, muitos mais. Talvez grosseiramente trinchadas. Talvez afastadas da verdade daquelas vidas, talvez achatadas por nosso pensamento seco e descomprometido com a realidade. Pela nossa impaciência, indisciplina e pressa.
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Mas, para ser generosos, pensemos que se não fosse assim, que se não tivéssemos os frutos trinchados, mal trinchados, talvez estes incômodos, estas perguntas não nos ocorressem. Tratamos das ciências, da arte e da religião diariamente, despudoradamente, mesmo.
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O fato é que eu me encanto com o acesso que damos aos estudantes à humanidade do passado. É fantástico. Mas me parece que se entopimos nossos alunos com uma quantidade tão avassaladora de informações do passado que não lhes sobra tempo para, eles mesmos aventurarem-se pelas ciências, pelas artes ou pela religião. Talvez lhes queiramos abrir todas as portas e, antes mesmo que lhes ocorra qualquer pergunta, desfiamos um corolário de conceitos seguros e conquistas antigas.
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Eu proporia mais cuidado. Precisamos confiar que ente nós, entre as crianças que nascem todos os dias, entre os homens de hoje há pessoas com muitíssimo potencial para descobrir o mundo. O potencial humano não diminuiu em nada. Eu diria mesmo o contrário. Mas colocamos um teto nas ciências: melhor que Thomas Edson vocês não podem fazer, mais que Galileu? Impossível! Estes são os gênios que revelaram A Realidade. Como se depois deles ninguém mais tivesse dado nenhuma colaboração.
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Nas artes você tem que conhecer todas estas técnicas e todas estas biografias. Tem que conhecer todas as formas de expressão e ninguém está curioso para saber se você mesmo está interessado em experimentar a arte como forma de respiração e vida.
A Religião? Bom, a religião oscila entre repetir os filósofos sem ouvi-los e desconsiderar que haja qualquer coisa além do material. Viver a religião é antigo e desconsiderado.
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Talvez por medo de nos surpreendermos não permitimos que apareçam entre nós novas perguntas. Perguntas que trarão, certamente respostas novas e que vão nos ajustar no nosso tempo e no nosso espaço saudavelmente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria

    A sabedoria está como um manto energético a nossa volta.Descobrir o acesso para ela não é difícil, mas requer atenção e foco.