Pergunta sem tampa

7 fevereiro 2014, Comentários 0

ninhoNão sei se esse é o seu caso, mas desde que eu me conheço por gente eu procuro respostas para tudo. Tem muita gente que pensou antes de mim e deixou dicas ótimas a respeito de quase todos os assuntos na vida. Eu tenho memória para estas coisas – não para tudo, mas para estas coisas eu tenho. Daí quando uma pessoa perguntava alguma coisa eu acessava imediatamente aquela resposta que eu tinha compilado e isso me dava uma satisfação e um conforto enormes. Era como achar uma tampa para a pergunta. Pronto!

Por conta disso muita gente veio para mim trazendo perguntas porque achava que eu tinha respostas para tudo – e eu tinha mesmo – e usava as ‘tampas’ sem medo, usava porque eu sabia que aquela tampa cabia.

‘Por que é que se passa verniz em madeira?’

‘Porque tampa os poros, não deixa a umidade de fora alterar a interna, previne contra os bichos que a roem e ainda deixa um brilho lindo!’

Gostou da resposta? Boa, né? E para toda a pergunta eu tinha uma resposta que fechava perfeitamente. E quem vinha atrás das respostas tinha, também esta mesma sensação. E lá vinham:

Por que as pessoas se divorciam? Por que a gente morre? Por que a gente envelhece? Por que a gente entristece? Por que vermelho é quente? Por que na nossa família se morre do coração? Por que todo mundo se preocupa em ganhar dinheiro? Por que é que tem ruivos com cabelo pixaim? Por que tem negros com olhos azuis? Por que existem números sagrados? Primos? Perfeitos? O que é geometria? Por que mataram Joana D’Arc? Como é que os japoneses incorporaram palavras em português na língua deles?

E respostas há para tudo. Tão bom! Respostas precisas, científicas, comprováveis. Isto é o que mais autoriza a pessoa que dá respostas. Você poder comprovar aquela resposta como sendo ‘a resposta’. Ou, seja: ‘a verdade’!

E é tão bom ter respostas! Dá um aquietamento, um sossego, para todo mundo. E a vida corre bem sabendo que cada pergunta tem sua tampa. E se existirem mil perguntas, com certeza existem mil respostas. Duas mil? Tem respostas!

Aí, de repente, parece que o mundo está virado no avesso! Parece que o universo está mais largo, mais comprido, parece que as dimensões não equivalem mais, e por mais que para os outros as respostas continuem servindo, para mim as tampas estão pequenas! As perguntas ficaram com a boca larga ou comprida. Que coisa irritante. Eu vou atrás das minhas respostas seguras de anos e percebo que quando eu tampo fica um vão por onde eu percebo a pergunta se retorcendo e brilhando toda provocação.

A questão é que pergunta sem resposta parece como pedra no sapato, fresta na janela deixando uma luz intrusa na hora que você quer dormir, é como um objeto travando a gaveta quando você quer fechá-la. Entende?  Ela não deixa em paz! Você pode cobrir o rosto, virar para o lado, mas na hora que você relaxa a luz acha um jeito de alcançar teu olho e te incomoda.

Só que depois de um tempo você descobre que perguntas e respostas são pessoais. Cada pergunta nasce como nasce uma pessoa, é única, ainda que soe igual na palavra que a gente põe para fora. E para ser feita uma pergunta é preciso uma vivência de uma pessoa com alguma coisa que perturbe e instigue para então ela poder ser expressa.

E quando uma pergunta nasce assim de uma vivência, do experimentar, ela é quase uma parente que a gente ama muito e não entende. Ela é aquela adolescente durona que tatuou-se inteira, usa piercing e raspa o cabelo, aquela que nunca almoça com a família e que no dia em que o avô teve um achaque veio choramingando se abraçar com ele e lhe dar de comer na boca como se fosse a mais frágil e conservadora das criaturas. Ela é uma pergunta!

Perguntas são como aquela avó com Alzheimer que você adora e que com quem você sempre deu risada pela vida toda. E agora você senta com ela e escova os cabelos dela, e leva ao banheiro e canta para ela, e ela quase nunca dá sinais de te perceber, daí, de vez em quando, ela canta com você. Ela também é uma pergunta. Uma pergunta comprida e perene que vai conviver com você por muito tempo e que não vai ter resposta nos seus arcabouços.

E as respostas? Bom, as respostas vão sendo modeladas com a vida, por muito tempo, porque a gente tem que trazer o barro pra fazer a tampa no bico, bem do jeito que faz o João quando faz o ninho. E quando a resposta termina de ser construída, bom, ela é como uma libertação.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.