Pensamento

19 julho 2013, Comentários 0

FOTO11_serigrafia_mil+e+uma+noites[1]Tenho me debruçado sobre a ideia do pensar como vício. Ir atrás do pensamento como cachorro atrás de um cheiro – como ilustra Eckard Tolle. A gente se confunde. Confunde quem somos com o gerador dos pensamentos – um instrumento nosso. Ficamos a tal ponto inseguros que fazemos de pensamentos uma teia, uma cama que sustenta nossa identidade. Temos quase certeza que se pararmos de pensar desapareceremos. Tal é nosso pavor que nunca nos permitimos parar.

Mas o pensamento tem muito valor. É ele que nos leva muitas vezes a descobrir coisas, porque com ele podemos ‘desfiar’ relações que estão expressas aos nossos sentidos e dar conta de chegar a conclusões. O interessante é que há pessoas que descobrem coisas ao dormir. Acordam com aquela sensação de ‘eureka’ depois de dias terem largado de pensar sobre alguma coisa.

Não podemos nos confundir com o pensamento. O pensamento é um engenho tão peculiar que ele mesmo cria um identidadezinha própria. Ele grita como mínimo ser que é para que lhe demos atenção, quer que o alimentemos com olhares, com concordâncias e discordâncias, com uma caminhada sem fim em que ele mesmo dirige e nós nos esquecemos de que deveríamos estar dirigindo.

Normalmente despertamos de um destes pensamentos muitos minutos ou horas depois, completamente esquecidos da primeira ideia que gerou o pensamento ou sequer do caminho que percorremos. Os pensamentos são como as mil e uma noites da Sherazad – desfia todas as noites uma história baseada em um personagem ou em um fato que aconteceu na noite anterior e lá se vai mais um tempo atrelado a curiosidade ou desejo de conhecer o final da história. Só o caso é que pensamento vai além – são mais que mil e um, são intermináveis! Se um personagem que surge no primeiro pensamento tem potencial de chamar mais atenção do que o próprio pensamento, então seguimo-lo com um pensamento transversal e novo e assim terminamos perdidos em um salão de quinquilharias: sensações físicas, objetos, sentimentos, memórias, palavras, tudo nos conduzirá a uma quantidade interminável de conversas interiores que não levam a nada. A nada mais que o esquecimento de nós mesmos.

Pior ainda: as vezes encontramos entre os entulhos do salão um pensamento antigo ou um pensamento do qual nos envaidecemos, ou um pensamento alheio e desde modo potencializamos a passagem por ele muitas e muitas vezes já que não só encontraremos coisas, mas também pensamentos sobre coisas, e lá vão nossas horas de vida.

Mas sentado diante destes pensamentos todos está alguém. Mesmo pensando agora você poderia perceber que tem alguém que é uma consciência permanentemente presente que assiste a tudo – você. Uma consciência da qual, aliás os pensamentos nos afastam constantemente.

Dá vontade de abandonar os pensamentos. Mal isto não faria, de fato. No entanto não precisamos propriamente jogar todos os pensamentos fora. Como é que eu planejarei o almoço ou a ida a escola, ou ao trabalho? Como poderia realizar o planejamento das minhas tarefas, de palestras, de negócios? Como eu poderia elaborar as coisas no futuro e administrar as pendências se não tivesse sempre a capacidade dos pensamentos? Bom, pensar pode ser um passeio pelo salão de entulhos ou uma disciplina: pensar assim e sobre isso durante um tal tempo. E – mais importante de tudo – enquanto eu penso, estar sempre atento à presença constante da sua consciência, de você, afinal.

Pensar somente coordenadamente e sobre um assunto que eu escolha – nunca deixar as rédeas nas mãos dos pensamentos. Eles saem galopando por aí. Você está com a rédea nas mãos e pode segurá-lo, fazê-lo sentar e mesmo ficar calado.

Depois destas condições preenchidas: a de se perceber como a tal consciência que a tudo assiste; a de se pôr rédeas e guiar os pensamentos, bom, depois disso você poderá perceber que pode ficar muito tempo sem precisar pensar. No fim a consciência estar sempre presente, e se ter consciência sobre isto, pode ser muito mais interessante do que farejar pensamentos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.