Pelo que nós trabalhamos

4 março 2013, Comentários 0

PontoDentroCirculo

Minha vida inteira trabalhei pela manhã. Estando ou não dentro de uma empresa, sempre gostei de acordar muito cedo e ir trabalhar, e sempre trabalhei até tarde da noite, entretida com as tarefas que me apareceram pelo meio do dia e os planos para os trabalhos dos dias ou épocas seguintes.

Sempre pela manhã eu me abria às pessoas com as quais ia lidar. Era para elas que eu estava lá e tudo devia estar ajustado ao que elas precisariam, depois de fechar o trabalho com elas, eu fazia uma leitura do que tinha acontecido. Vamos dizer que dos sucessos e insucessos do dia. Ia fazendo uma coleta do que devia ser melhorado para adiante, o que devia ser modificado e o que devia permanecer, e desde aí eu desenhava o caminho do que viria adiante.

Pela tarde eu fazia os trabalhos de manutenção desse serviço – desenhos, pesquisas, correções, encontros com quem precisasse e leituras complementares. Muitas vezes eram nestas tardes que trocava experiências e oferecia e recebia auxílio, trocas com quem tivesse disponível.

Uma quantidade inimaginável de vezes eu ouvi por parte dos meus amigos e dos meus familiares que eu estava exagerando. Que era insensato passar tantas horas estudando ou lendo ou preparando aulas para a escola. Que não fazia sentido ligar para tantas pessoas nem ficar tantas horas escrevendo.

Olhando para trás eu posso dizer que eu poderia mesmo ter cortado muito do que eu fiz. Talvez dormido mais, talvez restringido mais as atividades ou ter mais foco.

Mas o que é interessante sobre este trabalho é que eu tinha absoluta certeza de que este era o trabalho mais importante do mundo. As pessoas que estavam diante de mim eram as mais importantes, o que eu conseguisse elaborar para elas era o mais importante e desta maneira a cada manhã e a cada fim de dia eu tinha muita vontade de continuar trabalhando,

Sempre havia uma pergunta a ser respondida, uma meta a ser alcançada e sempre e sempre eu vi no rosto das pessoas com quem eu trabalhava o testemunho de que elas aproveitavam demais aquilo que eu levava como contribuição para o seu crescimento.

Mas eu sou rodeada de pessoas que trabalham com outros assuntos que não propriamente a educação. Seria ingênuo imaginar que somente a educação importa no mundo. As pessoas servem-se umas as outras generosamente todos os dias. Eu reconheço o entusiasmo do padeiro que faz o pão para minha primeira refeição da manhã, a paixão do empresário que acompanha o café e o embala para que eu o abra sem nem mesmo me dar conta da quantidade de pessoas envolvidas desde o plantio, a colheita e a seleção do grão até o desenho da embalagem e a escolha das cores e das imagens. Tantas pessoas que são arrastadas pelo impulso apaixonado de uma primeira.

Reconheço o envolvimento entusiasmado – afinal isso eu testemunhei – dos carpinteiros que trabalharam na minha casa. Lembro-me de como discutiam acaloradamente a solução de problemas de espaço e adaptações na reforma que fizemos como se disso dependesse a vida. E aí se tem uma certa razão, depende, mesmo. Não a vida sobreviver, mas a vida de fraternidade, de comemoração, de cultivo estético e de funcionalidades.

E me pergunto sempre o que é que nos leva a ter esta paixão tão intensa por um trabalho, este comprometimento que não há hora do dia que suma o assunto da nossa mente, que não há momento em que não nos faça bater o coração com entusiasmo, e não existe nada no mundo que de alguma maneira não se relacione com as questões desse trabalho.

Imagino que em cada pessoa reverbere um ideal – calado e firme, relativo àquilo que pratica. Este ideal é como um portal para um universo de possibilidades que está vedado aos outros, e que somente esta pessoa tem condição de acessar, porque esta pessoa é serva incondicional deste ideal. Daí ela tira inspiração diária, traz renovação e é alimentada. O ideal é como o sol, ele é o Cristo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.