Paralelo ingenóbvio com a cor

22 agosto 2013, Comentários 0

joseph-mallord-william-turner-der-brand-des-parlamentsgebaeudes-16.-oktober-1834-09800Vocês podem ter ouvido falar na teoria das cores de Goethe. Uma das mais brilhantes – até literalmente – das teorias científicas que conheci. Não somente a luz gera as cores, mas a conversa entre a luz e a escuridão. Quando ouvi falar nisso pela primeira vez eu me perguntei a razão pela qual negamos a existência de algo que nossos olhos mesmo testificam. Não se considera opor uma pessoa vestida a uma não vestida. Ora, uma está de roupa e a outra está pelada. É simples assim.

Goethe disse o óbvio,  mas há quem o duvide até agora. A conversa da escuridão com a luz gera as cores. E a força de uma sobre a outra nesta conversa é que gera este espectro que conhecemos. Isto que nos atravessa os olhos, mas que, de verdade, é imaterial e fala à alma mais que aos olhos mesmos.

A cor é filha do ceder e do vencer, da imposição e da acolhida, da superposição e do esconder-se. É como uma luta, ou, talvez melhor, eu penso que a cor é a celebração de um ponto de equilíbrio entre os dois extremos. Celebrações quentes, frias, tristes, vibrantes, apagadas ou brilhantes entre a escuridão e a luz.

Estas oposições tão extremas na nossa percepção estão encostadas uma na outra pelo ‘lado de lá’, no avesso do que a gente percebe. Elas não são oposições, são a mesma coisa percebida do outro lado – como com uma moeda ou com um cobertor. Ninguém acredita ao virar o lado do cobertor que ele não é o mesmo que se via do outro – por mais que os desenhos sejam diferentes ou as texturas.

Penso isto de todas as oposições e o que me vem é que a conversa de cada uma delas produz também um expectro. Tome qualquer uma: o bem e o mal, ou a miséria e a felicidade, por exemplo. Está bem, todos estamos atrás da felicidade plena, mas não fosse a miséria existir não teríamos nem mesmo impulso para a felicidade. Não teríamos percepção dela e não desconfiaríamos da distância que nos aproxima dela.

A nossa capacidade de perceber as cores geradas entre a miséria absoluta e a plena felicidade são para nós medidas de esforço ou contentamento. A cor que se aproxima mais de um estado ou de outro importa. E o mais interessante, e talvez o mais significativo de tudo isso é ser capaz de perceber a felicidade tingindo a miséria. Talvez muito suavemente. Talvez muito imperceptivelmente, mas há as vezes um borrão colorido na miséria que denuncia a presença da felicidade.

Rudolf Steiner fala que a causa da existência da miséria no mundo é possibilitar aos Seres Divinos sua transformação em Felicidade. Ele diz que, sozinha, a Felicidade não nos conduziria a aprofundar-se na vida e que somente a felicidade que brota da miséria faz com que a gente se dê conta da profundidade do mundo.

Imagine isso: as nuances da realidade entre miséria e felicidade são fruto do trabalho de Seres Divinos. Bom, e tem como existir alguma coisa na realidade que não seja criada por alguém, por um ser, enfim, que se empenhe nisto? Há tanto tempo que eu vejo as cores, que lido com cores e as admiro demais, mas há em mim um materialismo seco que me confunde na percepção dos fenômenos. Cada batalha entre opostos é campo de trabalho de algum ser, e gera espectros na nossa realidade. O mundo é insuspeitadamente muitíssimo colorido.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.