Para minha filha

27 maio 2013, Comentários 2

klimt_the three ages of womenOuço conversas de mulheres ressentidas. Mulheres que criam seus filhos para si mesmas e ficam depois concorrendo com as noras, com os genros, com os netos, ciumentas. Não podem viver um minuto sem exigir doentiamente dos filhos que lhes mostrem afeto. E na verdade os filhos não deixam nunca de amá-las, mas não aguentam mais o compromisso forçado de mostrar este afeto.

Ai, que cansaço – eu tenho que dizer! Mas que cansaço devem ter estes filhos dessas mães ciumentas. E vira um jogo de empurra. Um irmão para o outro: ‘este fim de semana é seu.’ ‘Eu jantei com a mãe na quarta-feira’. Ou se não um larga na mão do outro e simplesmente abandona a relação. E aí é a chatice da mãe falando: ‘sua irmã já me esqueceu, aquela ingrata!’

No fim e de fato, esquecem-se de que a mãe é a mãe mesmo. Aquela mesma mulher de sempre que compartilhou a casa, a comida, o colo, os humores. Esta, definitivamente, é uma mulher que perdeu o fio da meada. Uma mulher que se perdeu no seu próprio compromisso de crescimento enquanto mulher e enquanto gente. Aquele crescimento que é possível para todo mundo.

Infelizmente essa uma mulher não conseguiu ver que os anos simplesmente passam e que a gente tem que optar pela felicidade do dia de hoje. A nossa, claro, mas a felicidade dos filhos também é muito importante. Eles são o ‘próximo’, não é? E no começo é tão fácil. Ou talvez, tão adormecido: a gente acode as necessidades do choro, a gente se dá quase que instintivamente e por inteiro. Depois, com o encontro com a pessoa que vai chegando, com aquele Eu cheio de vontade e de ‘não’ a gente começa a despertar.

Some o bebê e aparece uma criança exigente, some a criança e aparece um adolescente. E a mãe não sabe mais ser feliz com ela. Não sabe mais dar o limite para a exigência da criança e mostrar como é que se está contente com a vida. A mãe mesma não dá exemplo de felicidade.

No fim, é necessário ser mãe da criança que se apresenta diante de si. Não de outra. Não daquela que foi morar na nossa memória, não da que a gente imagina que ela seja porque tem esta idade ou ‘é parecida com o avô’. Tem que ser da criança que está te olhando e para quem você decidiu se dedicar.

E a gente tem que ensinar aos filhos a felicidade. Ensinar e aprender com eles, claro. Mas a gente tem que buscar registros da nossa vida toda que testemunhem felicidade e amontoar a volta dos nossos filhos, para que eles encontrem afinidade com estas experiências e consigam reproduzi-la e viver bem. E nisto a gente tem que lembrar que as crianças são crianças por pouco tempo, logo virarão gente grande. E são humanos acima de tudo. Portanto, por mais que a gente consiga predizer o que vai ser das crianças em tal ou qual época, o melhor seria a gente ficar observando qual será o original caminho que ele vai determinar para configurar sua biografia e dar muitas referências de bem e de contentamento.

No fim mães deveriam lembrar que é bem melhor a gente criar os filhos para eles mesmos. Afinal, os filhos são originais sempre, cada um. Mesmo que se tivessem vinte, mesmo que se tivessem gêmeos. Nunca se teria o mesmo. A grande beleza de se ter filhos é ter um exemplar da humanidade se desenvolvendo sob os seus olhos.

Eu tenho a graça de ter uma menina, Ela já avança no seu 15o ano de vida. Tão bonita, tão independente já. Eu a vejo cada vez menos. Cada vez mais a vida pede o tempo que ela tem. Ela fez novas amizades, sua escola oferece novas atividades. Ela canta e dança a alegria de viver todos os dias. Isto enche meu coração de satisfação, e acontece enquanto eu vou crescendo como mulher e como pessoa. A minha batalha de vida eu dedico a ela, para que me enxergue nos meus erros e nos meus acertos e possa dar seus próprios passos na direção que quiser. Com plenitude. Com meu amor.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • insistimento

    UAU! Parabéns pela filhota. Realmente cada vez menos vemos nossas meninas que nem podemos mais chamar de nossas.

    • Deriana Miranda

      Obrigada, Marcos. Parabéns por ser um bom pai.