A Palavra e o que Virá

6 janeiro 2014, Comentários 0

Remedios varo Luz EmergenteNão adianta dizer: ‘Não minta!’ A liberdade mora dentro da gente e não tem um ser no universo inteiro que tenha autoridade maior sobre a nossa língua do que a gente mesmo. Nenhum. Se falo a verdade ou se deixo de falar, isto tem a ver comigo mesmo e não há moral neste mundo que venha bater na minha porta ou dar na minha cara por isto. A verdade se diz se se quiser e também é assim com a mentira. E, bom, tem as consequências, e são várias.

A primeira consequência que eu experimentei mais recentemente foi a necessidade de dar um passo adiante, de tomar decisões, e não ter parâmetros certos para isso. Sim, porque a palavra, quando se carece dela, é porque ela é substituto de um fenômeno material em primeira mão. Descomplicando: se preciso ouvir de alguém que um vestido é verde isto significa que meus olhos são incapazes de chegar ao vestido, ou de interpretar a cor. A palavra está no lugar das coisas.

E então se o vestido é verde e preciso combinar um traje e organizar vamos dizer sapatos e jóias para acompanhá-lo e as notícias que me vêm são diferentes da realidade, por exemplo: ‘o vestido é rosa’, ‘o vestido é vermelho’, tudo o que eu fizer me baseando na palavra que eu ouço vai estar condenado a não dar certo, vai ser tempo jogado fora. Conseguiu imaginar no traje? Pois é!

A gente tem com a palavra a possibilidade da revelação do mundo para outra pessoa. Afinal nem tudo o que você conhece está acessível aos sentidos dos outros e quando você dá um testemunho qualquer que ele seja de algo que você tenha visto no passado ou vivido você dá aos outros parâmetros de avaliação, de posicionamento, de relação, etc. O horizonte da gente nos é particular. Você é o centro. Tem quem veja perto, mas tudo o que você vê, não tem quem veja. Isto poderia inspirar as pessoas a dizer a verdade, mas poderia igualmente ser motivo para se empenhar em mentir!

Assim que as coisas funcionam. Agora pense que a verdade – ou a mentira – possa atravessar qualquer discurso. Pode ser relativo a uma compra, a uma viagem, a um presente, a uma história, etc. Tudo que se refere a palavra, enfim, tudo no universo que se possa dizer. Pessoalmente eu gosto de ter o apoio da verdade.

E há as mais diversas justificativas para desviar-se de dizer a verdade. Já ouviu? ‘Vai machucar!’ ‘Ninguém está preparado!’ ‘Melhor ir dizendo aos pouquinhos.’ E assim vai. No entanto, se a gente não diz a verdade tudo o que vem depois da mentira vai estar comprometido. E quanto? Ora, pode estar comprometido infinitamente, envolvendo um número inimaginável de pessoas e de tempo em construções ilusórias ou equivocadas. É impressionante!

Mas a verdade tem o mesmo alcance. No entanto a gente não se apercebe dos efeitos da verdade com tanta veemência porque ela simplesmente constrói a vida bem solidamente. Sempre me lembro daquele conto sobre a mulher que caluniou a vizinha e foi perguntar ao padre se a calúnia era algo muito grave. E ele lhe respondeu: ‘tome um travesseiro de plumas e suba ao alto da torre da igreja para espalhá-las ao vento. Em seguida desça e vá recolhê-las. Isto vai te dar uma imagem sobre o tanto que a calúnia é grave.’

Mas a segunda consequência que eu percebi recentemente é que a mentira – ou a verdade – pode precipitar na vida da gente alguma coisa que era merecida. Paradoxal, não é? Então imagine que você tenha como necessidade para se realizar na sua vida ir fazer um curso de pintura na Holanda. Mas está empregada em uma universidade de renome e ganha muito bem. por algum motivo que não é necessário desenvolver aqui uma grande mentira te leva a ser demitido. O que fazer? Holanda! Compreendeu?

Portanto é aquilo: o que se diz é volátil e se espalhará no vento – e o vento dá voltas… Mas verdade ou mentira respondem a uma necessidade anterior daquele que será atingido por ela. Fica para você escolher como quer colaborar.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.